“CALLADO”, RETRATO VIGOROSO DE UM HOMEM E SUA ERA.
Por Celso Sabadin.
Quem pesquisa sabe que o Brasil está longe de ser um país generoso em seus arquivos iconográficos. Não raramente, documentaristas têm enormes dificuldades em encontrar imagens – still ou em movimento – para ilustrar suas obras, quando decidem levar para o audiovisual a vida e a trajetória de alguém que merece ser (re) descoberto pelas novas gerações.
Não saberia dizer se este foi o caso de “Callado”, de Emília Vieira, documentário que conta a história do escritor e jornalista Antonio Callado. Provavelmente sim. Mas de qualquer maneira, o longa resolveu de forma oportuna e brilhante a sua questão visual, fazendo explodir na tela a verdadeira essência da obra do biografado: seu texto. Com ritmo, vigor e um grafismo que remete ao concretismo, as palavras de Callado povoam e perpassam o espaço fílmico em enérgico preto e branco, alternando-se aos inevitáveis – e necessários – depoimentos que ganham roupa nova com simples e eficientes recursos visuais. Releituras verbais de sua obra, estrategicamente posicionadas sem excessos, também são bem-vindas durante o filme.
Autor de 18 livros (entre eles Quarup, Bar Dom Juan, Reflexos do Baile, traduzidos para mais de 20 idiomas ), nove peças de teatro, além de inúmeras reportagens, artigos e crônicas, o jornalista e escritor Antonio Callado é investigado em detalhes neste documentário que leva seu sobrenome.
O roteiro alinhava depoimentos de Ana Arruda e Tessy Callado – respectivamente viúva e filha do escritor – além de criar um fascinante mosaico de sua época através das histórias contadas por seus colegas e contemporâneos, como Carlos Heitor Cony, Davi Arrigucci, Matinas Suzuki, Mauricio Stycer, Sérgio Augusto e Wilson Figueiredo.
“Callado” relata episódios marcantes da trajetória do jornalista e escritor, incluindo a cobertura radiofônica desde Londres, para a BBC, da Segunda Guerra Mundial; a viagem ao Xingu para localizar os ossos do Coronel Percy Fawcett (1867-1925); a ida em fins dos anos 1960 ao Vietnã do Norte em luta contra os EUA. Callado engajou-se ainda, no início da década de 60, na cobertura da luta pela reforma agrária no nordeste brasileiro, a partir das Ligas Camponesas.
A diretora e roteirista Emília Silveira dirigiu os longas documentais “Setenta” (2014) e “Galeria F” (2016), sobre fatos ligados à ditatura de 64,“ Silêncio no Estúdio” (2017), sobre a jornalista, escritora e apresentadora Edna Savaget e, “Tente Entender o que Tento Dizer” (2018), sobre pessoas que vivem com HIV.
“Callado” estreia nos cinemas nesta quinta, 21 de janeiro.

