DOCUMENTÁRIO INVESTIGA VIDA E OBRA DE CHACRINHA.

Por Celso Sabadin.

Se alguém dissesse, lá pelos anos 1960, que o apresentador de televisão Chacrinha seria objeto de um documentário, provavelmente este alguém seria taxado de maluco inconsequente. Afinal, para a sempre prepotente burguesia brasileira, o sujeito era a máxima expressão da breguice e da baixaria, inundando a nossa televisão do que poderia haver de mais tosco: o popular. Chacrinha não era algo que “pudesse” ser assistido pelas elites. No máximo, “uma espiadinha ao passar pelo quarto da empregada”.

Anos depois, Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, viraria objeto de estudos acadêmicos na área da Comunicação, principalmente depois de ter sido “apadrinhado” por Caetano Veloso e Gilberto Gil como ícone do movimento Tropicalista, onde ganha o apelido de “Velho Guerreiro”.

O mundo, realmente, dá voltas. Roda, roda, roda e avisa. “Chacrinha – Eu Vim para Confundir e Não para Explicar”, que estreia nesta quinta, 28/01, não é o primeiro documentário feito sobre o apresentador/comunicador. Também pode ser conferido o premiado “Alô Alô Terezinha”, realizado por Nelson Hoineff em 2009, na época acusado de vulgaridade por ter exposto as  chacretes de maneira discutível. Além, claro, do longa “Chacrinha: O Velho Guerreiro”, este ficcional, dirigido por Andrucha Waddington. Mas sempre vale a pena revisitar o mito.

Dirigido por Claudio Manoel e Micael Langer, “Chacrinha – Eu Vim para Confundir e Não para Explicar“, desenvolve-se de forma clássica e didática, apoiando-se basicamente na mesma linguagem televisiva que acolhe o tema abordado.  O documentário resgata cenas históricas das poucas participações que Chacrinha realizou no cinema, entre elas “007 e ½ no Carnaval” (Victor Lima, 1966) e “Carnaval Barra Limpa” (J.B Tanko), incluindo até material iconográfico de comerciais de TV e do programa humorístico “Rancho Alegre”, pioneiro da TV Tupi, em 1950.

O alinhavo de depoimentos de familiares e personalidades da época conta cronologicamente a trajetória do apresentador, abordando não apenas os aspectos profissionais da sua carreira como também os mais íntimos de sua vida, alguns bastante doloridos.

“Pra competir com a vida real, a ficção tem que comer muito arroz com feijão”, diz o codiretor Claudio Manoel, explicando que o documentário faz um resgate realista da dimensão do que foi o comunicador, com histórias inéditas e outras já conhecidas do público. “O filme não é uma apologia ao Chacrinha, a gente não tinha pré-disposição de idolatrá-lo”, declara.

Ressalvas apenas para o excessivo tempo de tela aberto para Pedro Bial, o que desequilibra o ritmo dos depoimentos, e para a igualmente excessiva utilização da trilha musical, que sublinha de forma redundante o conteúdo das falas, chegando até a “brigar” com a riqueza do conteúdo dos depoimentos.

Mas nada que tire o interesse de mais um importante documentário que se une a tantos outros neste valoroso esforço audiovisual de mapear os mais diversos segmentos da cultura brasileira, tanto popular, como erudita. Tanto a dominante, como a do “quarto da empregada”.