“PERFIL DE UMA MULHER” O SILÊNCIO DA DÚVIDA E DA CULPA.
Por Celso Sabadin.
A qualidade que mais me atrai nos filmes japoneses contemporâneos (pelo menos os que têm chegado ano nosso circuito) é a sobriedade. Fico hipnotizado seguindo as tramas que – por mais passionais que possam ser – quase sempre são conduzidas por seus cineastas através de densos silêncios, amplos tempos de reflexão, trilha musical sutil inserida delicadamente em momentos-chave, e longas caminhadas de seus protagonistas através daquelas ruazinhas estreitas invariavelmente limpíssimas e vazias (já repararam o tanto que se caminha nos filmes japoneses?). Sou apaixonado por este clima intimista oriental.
A coprodução franco-nipônica “Perfil de uma Mulher segue de perto esta tradição. Ichiko (Mariko Tsutsui, ótima) é uma cuidadora de idosos numa destas cidades de ruas limpas e vazias (no caso, Nagareyama, a 30 quilômetros de Tóquio). Sua vida pacífica se transforma em tormento quando ela fica sabendo que seu próprio sobrinho sequestrou Saki (a estreante Miyu Ozawa), neta da senhora que ela cuida. A situação se complica quando Motoko (Mikako Ichikawa), irmã de Saki, prefere compactuar do segredo de Ichiko a tentar solucionar o caso.
Com direção e roteiro de Koji Fukada, “Perfil de uma Mulher” passa longe das questões policiais de investigações e sequestros, como sua sinopse poderia fazer supor. Sua narrativa é intimista, transitando entre o silêncio da culpa que consome a protagonista e a sexualidade reprimida de Motoko, que busca tirar proveito próprio a partir do viés trágico da situação.
Selecionado para a mostra competitiva no Festival de Locarno, “Perfil de uma Mulher” estreia nesta quinta, 28/01. Ideal para os fãs – como eu – do cinema oriental.

