AS MULHERES ENGANAM – E APANHAM – SEMPRE.

Por Celso Sabadin.

Muito se fala do “macho latino” destruidor de corações e não raramente um tanto violento com as mulheres. Mas poucos se atentam ao “macho anglo saxão”, tipo masculino dos mais difundidos pelo cinema norte-americano dos anos 1930 (e 40, 50…) e que com certeza moldou comportamentos do mundo inteiro nesta longa estrada da vida que é a história do Cinema.
Trata-se basicamente do “tough guy” (traduzido aqui como “durão”), personagens misóginos que invariavelmente esbofeteavam as mulheres que os acompanhavam em – quase – total submissão. Às vezes jogavam café fervente nos rostos delas também.
O tipo é uma constante nos chamados “filmes de gângsteres” (que principalmente a Warner fazia nos anos 1930, como subproduto cinematográfico resultante do desespero da crise de 1929) e se prolongou por toda a era dourada do Cinema Noir. E como o cinema estadunidense ditava modas e comportamentos de maneira determinante naquela época (ainda dita, mas talvez com menos intensidade agora), tremo só de pensar quantos machos pelo mundo meteram a mão em suas companheiras imaginando ser um James Cagney durão.

Tudo isso porque nestes tempos pandêmicos que me fazer perscrutar pelos mais tortuosos caminhos do entretenimento cinematográfico das madrugadas, me deparei com “Smart Money”, produção da Warner de 1931 que eu desconhecia. O que primeiro me chamou a atenção foi o elenco: Edward G. Robinson e James Cagney, que eu não sabia que haviam atuado juntos (e esta parece ter sido a única vez). Mas foi inevitável também me surpreender com o título que a distribuidora brasileira por aqui deu ao filme, na época do seu lançamento: “As Mulheres Enganam Sempre”. Interessante notar que no restante do mundo o filme foi traduzido como “Dinheiro Fácil”.
Não deu outra: “Smart Money” é exatamente o tipo do filme que quanto mais o sujeito mete a mão na mulher, mais “cool” ele é. Neste caso específico, há até uma cena de uma delas sendo expulsa de uma sala aos pontapés.

Claro que não podemos deixar de lado o conceito de Anacronismo, segundo o qual as obras artísticas, os hábitos e os costumes devem ser estudados de acordo com os momentos históricos em que eles aconteceram. Concordo. Mas é inevitável pensar que tempos eram aqueles em que nos filmes norte-americanos as mulheres eram feitas para apanhar deste supostos machões cujo comportamento era validado pela tradução brasileira, já que elas “enganam sempre”.

Além da personagem feminina expulsa aos chutes, o filme ainda traz um punhado de outras, quase todas em posições de total submissão às intempéries masculinas. Chama especial atenção uma cena em que o “herói” pede para uma recepcionista arrumar um quadro na parede – supostamente torto – apenas para que ela se distancie o suficiente para que ele possa olhar para sua bunda e fazer uma expressão facial sacana.

No caso de “Smart Money” nem é possível recorrer àquela desculpazinha básica que, nos filmes, quem bate em mulher é o vilão, que inevitavelmente será punido no final, para dar o exemplo. Nem é o caso, aqui, no qual Edward G. Robinson é “o cara legal”.

Como o filme é de 1931, ele não passou pelo tal Código Hays, regulamentação da indústria cinematográfica norte-americana que a partir de 1933 iniciou um forte processo de censura aos mais diversos temas, como adultério, crimes sem impunidade, heresias religiosas, palavrões, etc…. menos bater em mulheres. Isso continuou sendo permitido no cinema. E continua.

Ah, “As Mulheres Enganam Sempre” foi indicado ao Oscar de roteiro original.