“ARANHA”, DOLOROSAMENTE PRÓXIMO.
Por Celso Sabadin.
É impressionante como filmes sobre ditaduras de direita – de qualquer parte do mundo – passaram a ter representatividade e expressividade muito maiores depois que o Brasil foi vitimado pelo golpe de 2016. Quando ainda éramos uma democracia, tal tipo de filme era visto como uma espécie de regaste histórico, enquanto hoje eles assumem um caráter doloridamente documental e próximo.
“Aranha” é um deste filmes.
Coproduzido por Chile, Argentina e Brasil, “Aranha” desenterra para os dias atuais as ações do grupo de extrema direita Patria y Libertad, um dos responsáveis pelo golpe militar contra o presidente chileno Salvador Allende, em 1973.
Tudo começa quando uma ocorrência policial revela que o ex-terrorista Gerardo (vivido por Marcelo Alonso e Pedro Fontaine, em tempos históricos diferentes), dado como morto décadas atrás, na realidade está vivo e morando em Santiago. Tal “ressureição” poderá comprometer Inês (interpretada pela argentina Mercedes Morán e pela espanhola María Valverde) e seu marido Justo (Felipe Armas/ Gabriel Urzúa), que se envolveram com Gerardo num passado que julgavam esquecido e hoje gozam da riqueza e da “respeitabilidade social” obtidas na época de Pinochet.
Em empolgantes flash backs que se mesclam à ação contemporânea, “Aranha” expõe a sujeira, a hipocrisia, o ódio e a violência das forças anti-Allende e – principalmente – como tais poderes se cristalizaram na prepotente elite chilena que se beneficiaram e se beneficiam até hoje da política neo liberal implantada naquele país, após a derrubada da esquerda. Graças, inclusive, ao nosso conhecido Paulo Guedes.
Esta dolorosa e real visão do Chile de hoje chega às telas com roteiro de Guillermo Calderón e direção do sempre eficiente Andrés Wood, o mesmo dos ótimos “Machuca” e “Violeta foi para o Céu”, entre outros.
Indicado ao prêmio de melhor filme iberomericano no Goya 2020, “Aranha” estreia nesta quinta, 23/09.

