“CAPITÃES DE ZAATARI”, A SALVAÇÃO PELO FUTEBOL.
Por Celso Sabadin.
Cada vez menos se justifica a tradicional cisão cinematográfica entre o que se convencionou chamar de “ficção” e o que se convencionou chamar de “documentário”. Em tempos em que tudo é cada vez mais junto e misturado, ainda haveria alguma lógica em classificar produções cinematográficas dentro de suas limitadas caixinhas? Cinema é cinema, e o longa “Os Capitães de Zaatari” prova isso mais uma vez. Afinal, como “classificar” um filme em que os próprios protagonistas interpretam uma história que eles realmente viveram na vida real e a reencenam diante das câmeras?
Em “Capitães de Zaatari”, Mahmoud Dagher e Fawzi Qatleesh interpretam a si próprios, ou seja, dois jovens sírios vivendo em situação precária em um campo de refugiados na Jordânia. Alijados pela desumanidade da política de toda e qualquer oportunidade de melhorar de vida que o mundo possa lhes proporcionar, os rapazes só conseguem ver uma única saída digna para os seus futuros: o futebol. E ambos se agarram com unhas e dentes à chance de disputar um importante campeonato internacional sub-17 que acontecerá em Doha, no Qatar. Uma competição com potencial de lhes jogar alguma luz, algum holofote de fama que lhes permita sair das cruéis limitações de um campo de refugiados.
Dirigido por Ali El Arabi, documentarista com trabalhos realizados nas TVs egípcia e alemã, “Capitães de Zaatari” não esconde uma certa dose de ingenuidade em seu roteiro e até de alguns trejeitos publicitários em sua realização. Tem cenas que a câmera mexe tanto que eu pensei estar em algum filme do Fernando Meirelles.
Mas estes pequenos deslizes são amplamente superados basicamente por duas grandes qualidades: (1) a total desenvoltura e o carisma da dupla central de personagens e (2) o desesperado grito de socorro de milhões e milhões de refugiados pelo mundo inteiro, aqui representados pelos dois jovens que comandam a ação. “Quando se é refugiado, tiram tudo de nós, mas ninguém pode tirar nossos sonhos”, diz Mahmoud, em uma entrevista coletiva durante o filme. Piegas? Talvez… mas só para quem não vive num campo de refugiados.
Selecionado para os festivais de Seattle, San Francisco e Moscou, entre outros, “Capitães de Zaatari” ainda traz breves participações especiais de famosos futebolistas reais, como Lewandowski (não o ministro) e Xávi. Um belo filme para o Antonio Leal tentar trazer para o CineFoot.

