“A BRAVURA DE MOLLY”, WESTERN AUSTRALIANO FEMINISTA.
Por Celso Sabadin.
Logo nos primeiros momentos de “A Bravura de Molly”, vemos a personagem título (Leah Purcell, também roteirista e diretora do filme) varrendo a frente de sua casa. A cena se repetirá durante a trama. Seria um momento trivial e sem importância, não estivesse a casa de Molly situada em um vasto deserto cuja abundante e insistente poeira ao vento é impossível de ser varrida. Ficam claras neste instante a persistência e a resiliência que acompanharão a personagem durante toda a narrativa.
Logo se percebe que Molly, mãe de uma prole de crianças quase tão vasta como o próprio deserto, é o sustentáculo solitário de uma família cujo marido passa meses distante, pastoreando cabras na imensidão da Austrália.
Ela só tem sua própria força para defender a si própria e a suas crianças dos perigos da selvageria de um país em construção. A aridez, os ventos, a poeira e a solidão da natureza Molly supera com facilidade. Já para enfrentar as injustiças, a violência, o racismo e o machismo dos colonizadores britânicos em terras australianas, ela terá de ser bem mais forte.
O longa é baseado no conto “The Drover’s Wife: The Legend of Molly Johnson”, de Henry Lawson, considerado um dos principais cronistas da Austrália colonial. O material já havia rendido um telefilme australiano nos anos 1960, e ressurge agora com uma nova roupagem que enfatiza a luta feminista da personagem título.
Ainda que passado no século 19, e que siga o modelo tradicional do western dramático, “A Bravura de Molly” reveste-se de uma saudável contemporaneidade ao abrir duas importantes frentes de discussão: a do racismo, através de um aborígene injustamente preso em função de sua pele; e a do feminismo, imaginando os primórdios de uma imprensa direcionada às mulheres. Tais personagens terão em Molly os seus pontos de intersecção.
Só destoam do bom conjunto as intervenções equivocadas de uma trilha sonora de qualidade discutível, que mais provoca ruído que apoia a dramaturgia.
“A Bravura de Molly” marca a estreia na direção e roteirização de longas ficcionais de Leah Purcell, conhecida na Austrália como atriz e escritora/diretora de curtas, documentários e seriados de TV.
Selecionado para as mostras competitivas dos festivais de Sidney e Varsóvia, o longa venceu o Grande Prêmio do Júri no Asia Pacific Award, e está disponível no Brasil em www.cinemavirtual.com.br

