A BUSCA, O INFERNO, “A MÃE”.
Por Celso Sabadin.
De Pudovkin a Bong Joon-Ho, passando – por que não – por Paulo Gustavo, a “Mãe” sempre foi e sempre será um dos grandes temas do cinema. E nem poderia ser diferente, dada à inevitabilidade da personagem. Como seria, então “A Mãe” de Cristiano Burlan?
Para compreendê-la em toda sua extensão e profundidade, é importante conhecer seu autor/roteirista/diretor, que já realizou mais de 20 filmes, incluindo a Tetralogia em Preto e Branco, composta pelos longas “Sinfonia de um Homem Só” (2012), “Amador” (2014), “Hamlet” (2014) e “Fome” (2015), além dos premiados “Antes do Fim” (2017) e “Elegia de um Crime” (2018).
Burlan utiliza o cinema de forma catártica, exorcizando na tela os fantasmas de sua própria vivência: em “Construção”, “Mataram meu Irmão” e “Elegia de um Crime” – a chamada Trilogia do Luto – o cineasta aborda episódios de crimes e perdas que compõem a trágica história de sua própria família.
Assim, “A Mãe”, de Burlan, é forte e trágica. Ela é Maria (não poderia haver nome mais apropriado), nordestina que vive na periferia de São Paulo e ganha a vida como camelô ilegal no centro da capital. É preciso ter voz potente para gritar o produto que vende e pernas ágeis para fugir do rapa.
Sufocada pelo trabalho, Maria não se interessa por política. Quando perguntada sobre quais seriam os benefícios ou malefícios da reforma da previdência, ela simplesmente se espanta: “Que reforma?”. Não é por acaso que Maria revende simbólicos óculos escuros comprados de um fornecedor coreano. .
Por mais que a protagonista se isole e se aliene da realidade, será inevitável que esta mesma realidade a atinja de forma implacável: certo dia, seu filho, o estudante Valdo (Dunstin Farias), simplesmente não volta para casa. A vizinha talvez saiba o que aconteceu, mas opta pela omissão. O poder paralelo do bairro exige silêncio.
Maria se vê então absurda e dolorosamente solitária na via crúcis que empreenderá pela busca do filho. O Jardim Romano, bairro periférico onde se desenrola a ação, passa a representar o novo inferno de Dante Alighieri. Que não era romano, mas quase: era florentino.
Ainda que pequena e franzina, Maria utilizará a potência de sua voz de camelô para xingar as autoridades, e a força de suas pernas de fugir do poder para peregrinar em busca da verdade.
Durante a aspereza do caminho, escuta de uma personagem que “a ditadura militar só vai acabar no dia em que acabar a Polícia Militar”, basicamente a premissa fundamental deste verdadeiro filme-denúncia.
A nordestina é, antes de tudo, uma forte.
“A Mãe” se reveste de um forte caráter de realismo que não raro esbarra no documental. E com propriedade: Ana Carolina Marinho, corroteirista do longa ao lado de Burlan, é residente na periferia que alicerça a ação, da mesma forma que Dunstin Farias, no papel do filho, é rapper e participante do grupo de teatro Coletivo Estopô Balaio, que atua na região e também contribuiu com a composição do elenco (que traz ainda Mawusi Tulani, Helena Ignez, Debora Maria da Silva, Rub Brown, Ana Carolina Marinho, Tuna Dwek e Henrique Zanoni).
Maria é Marcélia Cartaxo, a pequena gigantesca paraibana premiada em Berlim por “A Hora da Estrela” e em Gramado por “Pacarrete”, entre tantos outros.
“A Mãe” foi o vencedor do 29º Festival de Cinema de Vitória, onde levou os troféus de Melhor Filme, para os júris oficial, popular e crítica, além de Melhor Direção, Melhor Interpretação, (para Marcélia ), e Fotografia. Em Gramado, recebeu os Kikitos de Melhor Atriz, para Marcélia, Direção e Desenho de Som.
Estreou na última quinta-feira, 10 de novembro.

