PARA QUE SERVE UM FESTIVAL DE CINEMA?
Muitas pessoas que curtem cinema e acompanham o noticiário sobre o assunto me perguntam para que serve, afinal, um Festival de Cinema. São várias as respostas. A principal, na minha forma de ver, é levar arte, pensamento, cultura e reflexão cinematográfica para todo o país.
Pouca gente sabe, mas o Brasil conta atualmente com mais de 200 eventos cinematográficos anuais, entre Mostras e Festivais. Claro que Gramado, Brasília, Fortaleza, Recife, as Mostras paulista e carioca e – agora – Paulínia são os que acabam obtendo maior destaque na imprensa. Mas todos os demais cento e noventa e poucos também são de grande importância, principalmente por levar Cinema para cidades e populações totalmente desprovidas de qualquer tipo de sala de exibição. O chamado circuito dos festivais já é uma forte alternativa às viciadas fórmulas desgastadas do circuito tradicional. Há Festivais anuais em São Luís, Ouro Preto, Paranapiacaba, Sergipe, Goiânia, Atibaia, Manaus, Varginha, Niteroi e cidades que a gente nem ouviu falar. Há Festivais temáticos, segmentados por assunto ou público. Você pode saber mais em WWW.forumdosfestivais.com.br
Só falta a Ancine reconhecer tudo isso efetivamente como circuito, mas esta já é outra história.
Particularmente, como jornalista e apaixonado por cinema, o que mais me atrai num festival são as sessões de debates com os realizadores dos filmes. É tradição – principalmente nos eventos grandes e médios – que a cada manhã se realize um debate/entrevista coletiva com os cineastas e realizadores do filmes exibidos na noite anterior. São verdadeiras aulas de cinema gratuitas, abertas a todos os interessados, onde o público em geral e a imprensa tem a oportunidade de conversar abertamente com diretores, atores e produtores. Quem está no festival e não vai aos debates não sabe o que perde.
Aqui no Festival de Paulínia, onde tudo é grande (a tela, o som, a platéia, os prêmios em dinheiro, o famoso Theatro com “th”), os debates tem sido memoráveis. Foi uma verdadeira catarse, praticamente uma terapia em grupo, o debate de “5 Vezes Favela – Agora por nós Mesmos”, realizado na manhã posterior à exibição do filme. Tudo transcorria normalmente, até que os atores presentes foram convocados a expor – “rapidamente, se possível” – suas experiências profissionais. O primeiro a falar foi Washington Rimas, artisticamente conhecido como Feijão, membro do grupo Afro Reagge que nunca havia trabalhando em cinema e que interpreta brilhantemente um chefe do tráfego no filme produzido por Cacá Diegues. Talento é talento: em poucos segundos o ator conquistou a simpatia do público. Extremamente comunicativo, foi logo disparando: “Meu nome é Washington Rimas, 34 anos, e todo mundo me conhece por Feijão. Mas ninguém nasce Feijão, não! Eu nasci Washington”. E com a atenção do público garantida, foi narrando suas experiências. Contou que o principal motivo dele ter interpretado um líder do tráfico com tanta naturalidade dá-se pelo fato dele próprio ter sido um. Que viu a morte de perto, quase se perdeu na vida, viu mortes de amigos, e que deve às artes a sua “salvação”. Hoje Feijão é músico, ator, artista… As gargalhadas iniciais do público foram se transformando em profundo silêncio.
Aos poucos, outros nomes do jovem elenco (Silvio Guindane, Samuel de Assis, Roberta Rodrigues…) também foram contando suas histórias de vida. Como todo o projeto do filme foi desenvolvido em comunidades, grande parte de seus atores e realizadores nasceram e cresceram em favelas, sendo obrigados a driblar milhões de dificuldades. Em todas as histórias pessoais que resultaram em sucesso, a arte em geral e o cinema em particular aparecem como tábuas de salvação. A sala de debates, já lotada, recebia cada vez mais pessoas, que começaram a se acomodar em pé mesmo. Não eram poucos os que choravam.
Gregório Duvivier (que já atuou no ótimo “Apenas o Fim” e faz uma ponta como oftalmologista em “Chico Xavier”), um dos poucos atores brancos no elenco, levantou-se, olhou para seus colegas negros, e disse: “Olá. Meu nome é Gregório Duvivier e eu estou aqui graças ao sistema de cotas”. A plateia explodiu em gargalhada. “Vocês não sabem como é difícil ser ator e branco neste país. Só consigo fazer papel de assaltado”, prosseguiu, arrancando ainda mais risadas. E neste clima deliciosamente esquizofrênico – entre choros e gargalhadas – prosseguiu um debate que ninguém queria que terminasse.
Uma experiência deste tipo já justificaria a existência de todo um Festival. Mas tinha mais: no dia seguinte, foi a vez dos participantes do filme “Desenrola” lotarem a sala dedicada às entrevistas coletivas. Seu elenco é formado por belos jovens e brancos cariocas da zona sul, diametralmente opostos à turma do dia anterior. Ou não? Talvez não: ainda que vindos de uma classe social privilegiada, as moças e rapazes de “Desenrola” demonstraram inúmeros pontos em comum com o pessoal da comunidade de “5 Vezes Favela”, como bom humor, vivacidade, inteligência. Em seus depoimentos, os jovens atores Lucas Salles e Vitor Thiré (neto de Cecil Thiré, bisneto de Tônia Carrero) – ambos na foto que abre esta matéria – foram responsáveis por explosões de riso tão altas que muitas pessoas foram à sala de debates apenas para conferir o que estava acontecendo.
E o que estava acontecendo era um Festival de Cinema. Um congraçamento de atores, diretores, técnicos, jornalistas e público em torno da inacreditável força agregadora da arte. Um evento de raro poder de mobilização que une em torno da ilusão das imagens em movimento as mais diferentes crenças e vivências.
Com tudo isso na cabeça e no coração, fui conferir uma sessão vespertina do filme “Chico Xavier”, também exibido aqui em Paulínia. E vi, numa terça-feira de trabalho, em plenas quatro horas da tarde, um cinema (ou theatro?) lotado por mais de 1.300 pessoas. Entre elas crianças que visivelmente nunca haviam sequer visitado uma sala de cinema, e idosos que há décadas não entravam em uma.
E ainda me perguntam para que serve um Festival de Cinema…
Celso Sabadin viajou a Paulínia a convite da organização do evento.

