“3 OBÁS DE XANGÔ” E A CELEBRAÇÃO DAS VIDAS.

Por Celso Sabadin.

Não sei exatamente quem criou – nem quando – a frase “baiano não nasce; baiano estreia”. Mas que ela é ótima, é! Eu chutaria que este conceito nasceu lá pelos anos 1950, quando políticas públicas implementadas naquele estado perceberam que incentivar as artes seria o melhor caminho para combater a exclusão, a pobreza e a marginalidade. A fundação da Escola Parque, por Anísio Teixeira, a atenção que a Universidade da Bahia passou a dar aos cursos de teatro, dança e música e – claro – a criação do Clube de Cinema da Bahia, por Walter da Silveira, certamente foram marcos fundamentais deste processo.

Pronto! Viajei na introdução outra vez. Tudo isso pra dizer que estreia em cinemas nesta quinta-feira, 4/09, “3 Obás de Xangô”.

Fui tomado por uma avassaladora tranquilidade ao assistir “3 Obás de Xangô”, que estreia em cinemas nesta quinta-feira, 04/09. Demorei um pouco pra entender porquê, mas acho que entendi. Acho.

Mais que um filme, “3 Obás de Xangô” é uma viagem a um tempo mítico. Ao radiografar parte da cultura baiana pela perspectiva de três de seus maiores expoentes – Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé – o longa nos transporta a um tempo passado utopicamente construído e imaginado. Um tempo no qual vivíamos a ilusão de que tudo era mais simples e mais poético. Não era, mas parecia que era porque tínhamos menos informações, e mais disponibilidade para nos dedicar às coisas realmente importantes da vida, como um romance de Amado, uma música de Dorival ou um desenho de Carybé.

Além de nos transportar para esse tempo mágico, o longa também nos leva para esse lugar (agora precisa falar “território”?) também ilusoriamente construído chamado Bahia. Uma Bahia sedimentada por estes três importantes artistas que, por suas vezes, fazem as devidas e necessárias conexões com a riquíssima espiritualidade do lugar, simbolizada pelos terreiros, sons, cheiros e necessárias mães menininhas de todos os cantos e encantos.

“3 Obás de Xangô” venceu o Grande Otelo de Melhor Longa-Metragem Documentário, foi eleito melhor filme, pelo Júri Popular, na Mostra  de Cinema de Tiradentes, além de ganhar o Redentor de Melhor Documentário no Festival do Rio e, na Mostra de São Paulo, o Prêmio do Público de Melhor Documentário Brasileiro.

Com roteiro de Meyohas, Joselia Aguiar, André Finotti e do diretor do filme, Sérgio Machado, “3 Obás de Xangô” é uma celebração das vidas.

 

Quem dirige

 Sérgio Machado nasceu em Salvador e trabalhou durante anos com Walter Salles. Foi assistente de direção de “Central do Brasil” e roteirista de “Abril Despedaçado” e de “Madame Satã”, de Karim Aïnouz. Dirigiu o documentário “Onde a Terra Acaba”, sobre o cineasta  Mário Peixoto.  “Cidade Baixa”, seu primeiro longa de ficção, foi lançado no Festival de Cannes e ganhou mais de 30 prêmios, entre eles: o Prêmio da Juventude, em Cannes, e os prêmios principais dos Festivais do Rio, Huelva, Verona, Mons. Dirigiu e roteirizou, em parceria  com Aïnouz, a série “Alice”. Adaptou para as telas “Quincas Berro D’Água”, uma das mais populares novelas de Jorge Amado. Dirigiu “Tudo que Aprendemos Juntos”, longa de encerramento do Festival de Locarno. Dirigiu “A Luta do Século”, melhor documentário no Festival do Rio em 2016. Foi diretor e roteirista da série “Irmãos Freitas”. Dirigiu o documentário “Neojiba”, “Música que Transforma” e o premiado longa “Rio do Desejo”, inspirado num conto de Milton Hatoum. Foi roteirista da série “Cidade de Deus – A Luta Não Para”, lançada em 2024 na Max. No mesmo ano, levou para os cinemas “Arca de Noé”, animação brasileira inspirada nos poemas de Vinicius de Moraes, codirigida com Alois de Leo, e lançou no Canal Curta o documentário  musical, “A Bahia me Fez Assim”. Em 2025, leva para o Disney+ “Maria e o Cangaço”, série que escreveu e dirigiu.