“ULISSES” QUER LUTA.
Por Celso Sabadin.
Em determinado momento de “Ulisses”, uma voz em off (creio que seja do próprio diretor, Cristiano Burlan), diz: “Sabe esse esforço meio inútil de tentar trazer o espectador pra dentro do filme? Eu prefiro que seja o contrário: que haja uma barreira, que seja uma luta entre o filme e o espectador. Que ele tenha que passar por isso. Ele tem que se esforçar, ele tem que se matar pra ver o filme. Não pode ser uma coisa passiva”.
Está dado o recado: “Ulisses”, que estreia em cinemas nesta quinta, 13/11, não veio pra facilitar a vida de ninguém. O material de divulgação diz que o longa “repensa o famoso personagem grego no mundo contemporâneo”. É verdade, mas é muito mais que isso. Mergulhando profundamente na linguagem experimental, este “Ulisses” de Burlan fragmenta sons, imagens e narrativas em viagens urbanas e litorâneas que provocam nossas percepções e desafiam nossos entendimentos nos mais variados níveis. Trata-se de uma incitação artístico-sensorial que já nasce coroada pela proposta estrutural de se contrapor ao inferno do mercado.
Nesta multiplicidade de percepções, pessoalmente fiquei boquiaberto e estupefacto (ainda existe esta palavra?) com a fotografia de Helder Martins, que alça o longa aos mais altos patamares da cinematografia mundial.
É admirável, mas não inesperado. Quem acompanha o sempre talentoso e provocativo trabalho de Burlan (veja sua filmografia logo abaixo) sabe o que esperar de sua obra. E quase nunca se decepciona ao enfrentar esta “luta entre o filme e o espectador”, como foi dito. Outra boa notícia é que “Ulisses” é apenas a primeira parte de uma trilogia cujo segundo capítulo – “Nosferatu” – já está finalizado, e que aguarda a conclusão “Dom Quixote”.
Os papeis principais são de Rodrigo Sanches como Ulisses e Ana Carolina Marinho como Penélope. Junto com o diretor, ambos os atores também assinam o roteiro. Repare ainda numa brevíssima – porém especialíssima – participação de Jean Claude Bernardet.
Quem dirige
Cristiano Burlan é diretor de cinema, teatro e professor. Realizou mais de 20 filmes. O documentário “Mataram Meu Irmão” (2013) foi o vencedor do Festival É Tudo Verdade 2013 e, no mesmo ano, recebeu o prêmio Governador do Estado de São Paulo para a Cultura. “Antes do Fim” (2017) ganhou o prêmio especial do júri da APCA em 2018. Os filmes “Construção”, “Mataram meu irmão” e “Elegia de um crime” compõem a Trilogia do Luto, em que aborda a trágica história de sua família. Em 2020, estreou a série “Paulo Freire, um homem do mundo” realizada pelo SescTV. Seu longa-metragem de ficção, “A Mãe”, que tem como protagonista a atriz Marcélia Cartaxo, participou do Festival de Málaga, onde angariou o prêmio de Atriz Coadjuvante, no Festival de Gramado recebeu os prêmios de Direção, Atriz. Estreou em 2023 o documentário “Antunes Filho, do olho para o coração”, realizado pelo SescTV. Em 2025, estreou seu novo filme “Nosferatu” no Festival de Brasilia, Festival do Rio, CineBH e Mostra de São Paulo.

