“ÁGUIAS DA REPÚBLICA”, O CINEMA COMO MENTIRA OFICIAL.

Por Celso Sabadin.

Entre incrédulo e estarrecido, assisti  ”Águias da República” sem saber direito se estava vendo um filme baseado em história real, ou não. Como ignorante que sou a respeito da história recente do Egito, pesquisei para saber se o presidente era mesmo Abdel Fattah el-Sisi, como está no filme, e se ele é um ditador. Sim e sim. E é até bastante parecido com o ator que o interpreta.

Mas e quanto ao cerne da história? Houve mesmo um filme ficcional chapa branca sobre el-Sisi feito a mando do próprio? E que durante as filmagens ocorreu uma violenta tentativa de golpe de estado devidamente encoberta? Sem muito tempo para pesquisar mais a fundo, fiquei sem resposta. Mas pensei: “Em um país sem liberdade de expressão e de imprensa, o que é fato ou ficção? Ou ainda… atualmente, em um país qualquer, o que é fato ou ficção?“.

Melhor então mergulhar no filme.

“Águias da República” mostra a roubada federal em que se meteu George Fahmy (interpretado pelo libanês Fares Fares), o ator mais famoso do Egito, quando aceitou interpretar o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi em um filme feito sob encomenda para glorificar a imagem do ditador. Na verdade, violentamente pressionado pelo governo, Fahmy não teve a opção de negar o papel, e é obrigado a engolir todas as interferências oficiais e truculentas que fazem parte deste seu novo e indesejado trabalho.

O mar de encrencas em que Fahmy – que também não é nenhum santinho – se afunda parece não ter fim, envolvendo amante, esposa, filho, e a alta cúpula do governo egípcio. Trata-se de um jogo de soberbas e poderes, de narcisismos e traições que se desmonta diante dos olhos do espectador como um jogo de dominó no qual a única peça que permanece em pé e a do poder absoluto.

“Águias da República” tem um início um pouco claudicante, mas vai se encorpando principalmente na segunda metade, quando assume seu estilo de suspense de ação política. Em tempos em que as democracias mundiais agonizam, o filme se reveste de uma triste aura muito significativa.

Produzido por Suécia, França, Dinamarca, Finlândia e Alemanha “Águias da República” tem direção de  Tarik Saleh,  cineasta nascido na Suécia e de origem egípcia, que foi expulso do Egito em 2015, no governo de el-Sisi. Evidentemente, o filme foi proibido no Egito.

A estreia em cinemas brasileiros é nesta quinta, 08/01.

 

Quem dirige

 

De origem egípcia, Tarik Saleh nasceu em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Começou a carreira artística como grafiteiro e realizando curtas de animação. Ao lado de Erik Gandini, dirigiu os documentários “Sacrificio, who Betrayed Che Guevara?” (2001), premiado no Festival de Havana, e “Gitmo – New Rules of War” (2005). Entre seus principais trabalhos estão os longas ficcionais “Metropia” (2009, 33ª Mostra), exibido em Annecy e premiado em Veneza, “Tommy” (2014), “O Incidente no Nile Hilton” (2017, 41ª Mostra), vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Sundance, “Contrato Perigoso” (2022) e “Garoto dos Céus” (2022, 46ª Mostra), vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes.