“O BOM CINEMA” É BOM PRA QUEM?  

Por Celso Sabadin.

Em tempos de Brasil arrasando nas premiações cinematográficas internacionais, o clima é mais do que propicio para a exibição do  ótimo documentário “O Bom Cinema”, nesta quarta-feira, 14/01, às 22h30, no Canal Curta.

Logo de cara, o título já me chama a atenção, questionado que fui inúmeras vezes – e continuo sendo – se determinado filme é “bom”. Eita perguntinha sem resposta: “Esse filme é bom?”.  Minha resposta é sempre outra pergunta: “O que significa ´bom´ pra você?”.  E é a partir desta total relativização conceitual da arte que o documentário se estrutura para realizar um bem vindo passeio pelos (des)caminhos do Cinema Marginal Brasileiro, movimento estético e artístico que a partir de 1968 atuou como um grito de desespero contra o recrudescimento da ditadura civil militar empresarial brasileira.

O documentário se apoia em conceitos do próprio Cinema Marginal Brasileiro para enfocar o seu objeto documentado. Nada de convencionalidades ou fórmulas prontas: ele é livre, leve, solto, fragmentado e criativo, como o próprio Cinema Marginal.

Fartamente ilustrado por um precioso manancial de imagens de arquivo, “O Bom Cinema” se apoia em depoimentos de profissionais da área – e da época – para compor um instigante  mosaico de imagens e pensamentos que nos remetem àqueles dilacerantes anos de chumbo. Carlos Reichembach e Rogério Sganzerla – coerentemente – são os cineastas que mais tempo ganham no filme. As vozes e imagens destes dois faróis do Cinema Marginal oferecem ao espectador um mergulho conceitual no tema, propondo e defendendo a ideia de que era necessário fazer “filmes ruins” naquele momento igualmente péssimo. Mesmo porque a moral vigente na época, amparada por uma sociedade conservadora comandada pela igreja católica, pregava que “o bom cinema” era aquele que exaltava valores diametralmente opostos àqueles defendidos pelas mentes verdadeiramente libertárias e humanistas.

A discussão é ótima e necessária, inclusive com o próprio Carlão rejeitando a nomenclatura de “Marginal”.

Tangencialmente, o longa também resgata a história da Escola Superior de Cinema, primeira faculdade brasileira de cinema que serviu de berço para cineastas da Boca do Lixo e do Cinema Marginal. Fundada por um padre jesuíta, a escola funcionou entre 1965 e 1972, em São Paulo, e ficou marcada por desavenças entre alunos ligados à contracultura e uma diretoria defensora “da moral e dos bons costumes”.

“O Bom Cinema” também será exibido nos seguintes horários alternativos: dia 15 de janeiro, às 02h30 e às 16h30; dia 16, às 10h30; dia 17, às 16h15; dia 18, às 22h15