“O AGENTE SECRETO” É UM FILME BEM FEITO DEMAIS PARA UM PAÍS QUE FUNCIONA MAL DEMAIS.
Desde o nascimento do cinema nacional estamos fadados à danação.
por Lucca Nardone*
Precisamos partir da reflexão de Rogério Sganzerla em A câmera cínica, que propõe um dos diagnósticos mais rigorosos do cinema moderno: a possibilidade de uma câmera que, ao se afastar do drama e da psicologia, recupere os seres e os objetos em sua visibilidade pura. Sganzerla descreve uma câmera que abdica da interpretação para tornar-se instrumento de constatação, instaurando uma ética do olhar fundada na indiferença e na distância. Essa câmera não explica, não simboliza, não organiza moralmente o mundo; ela observa.
Partindo desse referencial, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, se apresenta como um objeto instigante, opera num território limítrofe entre a observação distanciada e a reinscrição dramática da memória.
O filme adota uma mise-en-scène até interessante, planos que evitam o excesso emocional e uma narrativa que privilegia o silêncio e a suspensão. Gesto que a princípio se aproxima do que Sganzerla diz, mas a natureza desse distanciamento é distinta.
A câmera cínica de Rogério busca esvaziar o acontecimento de significado, reintegrando-o a um estado bruto de visibilidade, já a câmera de O Agente Secreto parece interessada em reter o sentido latente das ações. O afastamento não produz indiferença, mas reflexão. Não eliminando a psicologia. Seus zooms, retratos fantasmagóricos, pouco assombram.
Parafraseando Rogério: Em Casa de Bambu, de Samuel Fuller não se sabe por que o vilão é vilão, por que se tornou um marginal. Apresenta-se apenas um fato: ele é vilão, assim como o policial é policial. Quando o policial delata o vilão, que é seu amigo, não nos é explicado o porquê desta decisão. O único fato que sabemos é que ele traiu o amigo, porque é policial, enquanto que seu amigo é marginal. Godard explora uma situação idêntica, em Acossado, quando Michel diz que “denunciar é normal, os delatores delatam, os assaltantes assaltam, os assassinos assassinam, os amorosos amam”. Tanto Fuller como Godard não forçam uma explicação, não impingem um conhecimento relativo porque sabem que não conseguimos conhecer, saber ou possuir os seres e objetos, conseguimos somente ver que eles existem. (Outro diálogo de Acossado: Patrícia diz a Michel que gostaria de saber o que há por trás de seu olhar. “Olho-te durante dez minutos e não sei nada, nada, nada!”) Trata-se da evidência do “ser” em contraposição à relatividade do “saber” e do “possuir”. Na filosofia isso poderia ser definido como a essência que é preferida pela existência (dos seres e dos objetos). As personagens destes diretores não sabem nem possuem nada: agem; assim como nós não as possuímos ou conhecemos, apenas vemo-las. Daí a propriedade de chamá-las de heróis vazios.
Em O Agente Secreto, o protagonista não é um herói vazio. Sua ação é permanentemente atravessada pela memória. Definido pelo que lembra, pelo que carrega, pelo que reconhece como passado histórico, tornando a personagem previsível e a câmera, longe de organizar tudo isso com precisão. Sem ruídos.
O Agente Secreto se aproxima da corrente que entende o olhar não como pura presença, mas como mediação histórica. Arranhando a fenomenologia de Merleau-Ponty, permito-me dizer que o mundo se dá como experiência pré-reflexiva, antes de sua organização conceitual, O Agente Secreto trabalha com um mundo já atravessado pelo saber. Um olhar consciente de seu tempo e espaço. Isso não é um problema exclusivamente de Kleber, Godard já apontava para isso desde os anos 80, ‘A imagem já nasce contaminada pela história’.
O cinema brasileiro recente aprendeu a organizar sua forma de acordo com os regimes de circulação e premiação internacionais. A memória torna-se capital simbólico, o trauma, linguagem exportável, a contenção formal, signo de maturidade.
Dito isso, não se trata de ressentimento diante dos prêmios acumulados nos últimos anos. O reconhecimento é legítimo. Mas o resultado, muitas vezes, é um cinema bonito, correto, porém, rarefeito de pulsão. Um coito interrompido onde o gozo nunca chega.
A conhecida síndrome de patinho feio do cinema brasileiro reaparece agora não mais como inferioridade técnica, mas como desejo de legitimação. A cada ano, surge mais uma figura no palanque internacional reiterando esse drama, talvez já estejamos atrasados para um próximo passo. A articulação é necessária e que aumente cada vez mais.
Desejo que surjam muitos Klebers, Walters e outros tantos, em larga escala. Mas desejo ainda mais que surjam mostras/festivais descentralizados, políticas de exibição/produção contínuas e um contato vivo com a sequência interrompida dos movimentos cinematográficos deste país. Mas uma proposta de solução é algo que eu deixo de lado por aqui.
Que a linguagem se torne vício e não repetição.
Que o cinema volte a ser, acima de tudo, descolado.
Desde o nascimento do cinema nacional estamos fadados à danação, amaldiçoados por José Roberto de Cunha Salles, portanto que abracemo-la.
Fuller e Godard filmam o homem como animal, Kleber filma o homem como sujeito histórico, contido e silencioso. O conflito não se dá no nível do instinto, mas da lembrança. Evita a evidência do ser e se reduz à persistência do passado. Talvez Kleber seja daqueles cineastas de alma, e nunca haverá conciliação entre cineastas de alma e cineastas de corpo.
O cinema é um problema do século XX, resolvido no século XX, não nego o excesso de talento que realizadores como Kleber possuem, um aficionado na linguagem é sempre bem vindo a segurar uma câmera (e se um dia tiver o prazer de conhecê-lo vou adorar fazer carinho em teu bigode), estamos do mesmo lado, amamos o cinema, principalmente o nosso cinema, mas também não nego o excesso de bom comportamento, em uma arte cada vez mais fantasmagórica, uma pitada de cinismo e má-criação não fazem mal a ninguém.
*Lucca Nardone é cineasta e produtor do Festival de Paranapiacaba.

