EM PAULÍNIA, “IBITIPOCA, DROBA PRA LÁ” (RE)DESCOBRE UM BRASIL ESCONDIDO.
Acredito que ainda não tenhamos a menor noção da revolução social, histórica e antropológica que as câmeras digitais estão provocando no Brasil. Por causa da leveza e da facilidade de manejo delas, este nosso imenso país, que historicamente sempre foi tão impreciso em seus registros, vem ganhando mapeamentos audiovisuais em proporções até então inimagináveis.
Não, não estou fazendo a introdução de nenhum TCC, nem de nenhum projeto para encaminhar à Ancine. O pensamento me veio forte à mente na noite de ontem (11/07), durante a exibição de “Ibitipoca, Droba Pra Lá”, documentário concorrente neste 4º. Festival de Cinema de Paulínia.
O cineasta mineiro Felipe (foto)e sua equipe fizeram um mergulho cinematográfico pela região da Serra do Ibitipoca, Minas Gerais, e apresentaram no Festival um Brasil que só sai no Jornal Nacional em caso de tragédia ambiental. A proposta maior do filme foi a de simplesmente conversar com as pessoas, investigar o universo daqueles homens, mulheres, crianças e velhos que vivem em vilarejos que estão desaparecendo. O tal “fim de mundo” sem oportunidades onde ninguém mais quer morar. Estouram na tela a aridez de peles enrugadas pelo sol, a tristeza de quem já viu todos os entes queridos partirem (nos diversos sentidos da palavra), o contentamento de quem sabe apreciar a dádiva do silêncio, ou simplesmente a indiferença daqueles que sequer pensam no assunto. Os mais velhos relembram uma época em que não era necessário comprar nada no armazém, pois tudo se plantava ou se fazia em casa, conceito extraterrestre nos consumistas dias de hoje. “Causos” de assombrações divertem a platéia.
Mesmo estando a alguns punhados de quilômetros de vários centros urbanos, a região parece viver um isolamento abissal. Belas imagens de céus, sóis, luas, águas, estrelas e matas fornecem o clima necessário para que o espectador embarque na proposta.
Mais para o final do filme, uma virada: parte do lugar está sendo ameaçada pela devastadora indústria do turismo, com suas indefectíveis latinhas de cerveja, aglomerações noturnas e assustadores barzinhos com música ao vivo. Pela região, devem tocar Milton Nascimento e Clube da Esquina às pencas… Percebe-se que o isolamento paradisíaco não é tão intocável assim. É um país em mudança.
E percebe-se também a gigantesca função social destas tais câmeras digitais que saem por aí registrando e mapeando cada pedaço de chão e cada olho de gente que formam esta incompreensível teia cultural chamada Brasil. Das centenas – talvez mlhar – de pessoas que estavam na noite de ontem no Teatro Municipal, quantas possuíam algum conhecimento da região do Ibitipoca? Quantas se encantaram com aquelas imagens tão geograficamente próximas e antropologicamente distantes de nós? Quantos não (re) descobriram um novo país ontem à noite?
Pois é… a ainda falam que cinema nada mais é que entretenimento…
Celso Sabadin viajou a Paulínia a convite da organização do evento.

