CINE PE BUSCA FILMES QUE DIALOGUEM COM O PÚBLICO. E CONSEGUE.

Mesmo faltando ainda três longas para serem exibidos na Mostra Competitiva, já é possível traçar o perfil deste Cine PE 2012: parece claro que a curadoria priorizou filmes que buscam o diálogo direto com o público, de apelo popular (e não popularesco), sem maiores experimentalismos. A opção soa acertada, mesmo porque o Cine PE, apelidado de “O Maracanã dos Festivais”, tem antes de tudo um compromisso com as milhares de pessoas que diariamente lotam o Cine Teatro Guararapes.

Esta opção pelo diálogo amplo com o público pode ser notada, por exemplo, no sensível “À Beira do Caminho”, de Breno Silveira, cineasta cujo nome quase sempre vem seguido da frase “o mesmo diretor de 2 Filhos de Francisco”. O ótimo João Miguel vive aqui o papel de João, um motorista de caminhão amargo e solitário. Ao encontrar na estrada um garoto órfão, João o acolhe a contragosto, o que – não é preciso ser sábio para prever – vai mudar completamente a sua vida. “À Beira do Caminho” segue os padrões clássicos do “road movie transformador”, aquele onde o protagonista percorre claramente o seu chamado “arco dramático” que o levará à redenção de pecados passados. Clichê? Pode ser, mas clichê bem feito, bem produzido, de amplo diálogo popular, com uma deslumbrante fotografia de Lula Carvalho e interpretações convincentes de todo o elenco, onde Dira Paes novamente rouba a cena. Quer mais? A trilha sonora, fator importantíssimo nesta narrativa, é recheada por músicas de Roberto Carlos, o que remete ao filme “Caminho das Nuvens”, que Wagner Moura protagonizou em 2003. A busca pelo pai perdido também dialoga muito com outro road movie estradeiro brasileiro: “Central do Brasil”. O filme deve estrear dia 10 de agosto.

Ainda na área da ficção, o carioca “Corda Bamba, História de uma Menina Equilibrista”, de Eduardo Goldenstein, também busca a emoção da plateia. No caso, da plateia infanto-juvenil. Em tom de fábula, o roteiro (também de Eduardo) conta a história da menina Maria (Bia Goldenstein, filha do diretor), uma garota órfã obrigada a abandonar seu trabalho de equilibrista de circo para ter uma vida mais “normal” com a avó dominadora. Simbolizando a eterna luta entre os desejos libertários e a realidade opressora, a menina mergulha num mundo de sonhos e lembranças que a levarão ao necessário rito de passagem da consciência.

“Corda Bamba, História de uma Menina Equilibrista”, com o perdão do trocadilho, se equilibra num perigoso meio termo entre o drama e o filme infanto-juvenil, o que pode ser um fator de complicação de mercado, quando encontrar distribuidora.
Em relação aos documentários, ”Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, disseca a trajetória da vida e da obra do cantor e compositor

Jorge Mautner, figura das mais carismáticas e representativas no cenário musical brasileiro dos anos 60, 70 e 80. Dirigido pelo jornalista Pedro Bial, em parceira com Heitor D´Alincourt, o filme alterna bons e não tão bons momentos, mas obtém sucesso em seus objetivos de conquistar a plateia e de retratar com conteúdo o seu biografado. Quase totalmente rodado em estúdio, ele não foge, porém, de um certo ar de especial de televisão.

Hoje, (1o./05) a Mostra Competitiva do Cine PE se encerra com a exibição de mais 3 longas: a ficção paulista “Boca”, de Flávio Frederico; o documentário pernambucano “Estradeiros”, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro”; e a ficção pernambucana “Na Quadrada das Águas Perdida”, de Wagner Miranda e Marcos Carvalho.
Os resultados serão anunciados amanhã.

Celso Sabadin viajou a convite da organização do evento.