OLHAR DE CINEMA 2012: “SANGUE DO MEU SANGUE” REMETE A NELSON RODRIGUES.

Nesse momento em que escrevo – quase 11h da manhã de sábado -, com o frio de Curitiba se insinuando aos poucos, a celebração de 40 anos da famosa e bela Rua das Flores (onde se situa o nosso hotel) trouxe parda baixo de nossas janelas um desfile de uma enorme quantidade de bandas… Olho pela janela e vejo o belo calçadão colorido pelos universos de cada uma delas: ilusão visual bem bacana, sonorizada de forma pra lá de afinada. Fato raro esse em nossas vidas urbanas atuais. Aliás, a díade é rara. Continua como sempre muito organizada e limpa: e funcional. As pessoas com quem tenho interagido se mostram educadas, calmas e educadas: dizem por aí que os curitibanos têm mania de “puxar” tudo de bom para como se fosse daqui… Se for verdade tal caricaturização de comportamento, talvez mais justo que os de cá assumam tal posto reivindicador do que de outras cidades por ando – e incluo aí a minha São Paulo.

Mas vamos lá: hoje economizo no meu diário e volto ao “trabalho crítico”.

JANELA INTERNACIONAL

Sangue do Meu Sangue, de João Canijo. Portugal, 2011, DCP, colorido, 140 min, ficção [Foto 4]

Para quem viu o filme de 2007 de João Canijo, A Mal Nascida, saberá já que é da falta de medo na busca dos extremos que limitam o “bom senso” e o “bom modo” narrativo que ele “sofre”. Quem já o conhece entende que encontrará a cada nova realização brotada de suas mãos algo que faz perceber a potencialidade – evidentemente latente – que os assuntos mais íntimos e incrustados familiares têm para criar elementos que podem, e devem, ser denominados como melodramáticos. E quem já o viu, ou o vir nesse mais recente Sangue do Meu Sangue, entenderá que alcunhar pejorativamente dramas de melodramáticos só é possível por quem realiza arte e não sabe a verdade e força bruta que os extremos dos comportamentos íntimos familiares emprestam generosamente para serem transformados em obras.

Nelson Rodrigues – que assoma à memória de forma brutal durante a projeção de “Sangue…” -, poderia ser um ser padrinho mais reconhecível para nós brasileiros do que significa trabalhar com alguns dos símbolos dessas fronteiras dos comportamentos sem medo de parecer ridículo: ele, que não por acaso, apesar de não ser carioca de nascimento, retratou os “bastidores” das famílias cariocas como o algo nosso de mais proximidade ao que é o Portugal retratado por Canijo. E se o nosso dramaturgo fez da utilização desses “signos sanguíneos e fluidos” algo que deixou marcas com carimbo de qualidade, é porque sabia tratar de forma inteligente e rara com as palavras, que eram as ferramentas mais importantes na arte por onde transitava. E se Canijo também o faz de modo “simplesmente espetacular”, é também porque sabe utilizar as suas ferramentas: ferramentas que nossas novelas, ou alguns filmes latinos, tratam de forma inadequada, preguiçosa, sem entender que são possíveis e suficientes para alcançar excelência, e passíveis de resultarem os monstrengos que acabaram com o passar do tempo (e a enormidade de produções lançadas a todo tempo) envenenando nossa compreensão do que significa o drama extremo: ou, o melodrama. Portanto, sem medo, utilizo mesmo “melodrama” como o ideal para definir o que esse diretor português faz.

E se é possível se alcançar a excelência nesses casos, já se pode citar o que Sangue de Meu Sangue consegue emprestar ao olhar do espectador tecnicamente: o que as lentes e câmeras concretizam para a ostentação por vezes chega a beirar o que poderia ser definido como um “bom preciosismo” (numa nova subversão a termos que acabam calhando como forma jocosa de alusão), quando durante toda a parte inicial do filme, que basicamente ocorre entre as paredes – onde se pode definir de forma mais precisa cada um dos personagens – os ambientes e faces são dissecados plena e calmamente, através de movimentos suaves que chegam a emprestar a sensação de serem estáticos, mas com câmera que se move por espaços exíguos (por vezes uma simples e milimétrica guinada, por outras, um traspassar de barreiras físicas mínimas – uma janela, um assento, um rosto ou uma mesa) para alertar sobre a pujança de sentimentos, histórias e individualidades que pulsam entre pessoas tão próximas quanto distintas; num “segundo” instante, a observação das lentes passa a entregar à tela a divisão dos locais, quebrando a formalidade de atenção única a um “assunto essencial” tratado na vez, para demonstrar importâncias paralelas nos fatos que ocorrem a centímetros ou uma parede de distância (e tome mãe e filha discutindo na área, enquanto sobrinho e tia fumam na cozinha do outro lado da porta aberta, por exemplo, com a novidade de a partir de então os diálogos e sons também ganharem importância individual, mas retratados e reproduzidos simultaneamente – diálogos e sons que comentarei mais brevemente à frente); e a técnica se mostrando ainda muito esmerada não se permite acomodada quando num “terceiro momento” ultrapassa as barreiras diminutas dos ambientes familiares para ganhar a rua e outros espaços “mais públicos”, quando então , ao se sentir mais liberta e solta passa a fazer com que as lentes observem as novidades por tomadas mais distantes de ampla e fina captação ambiental, ou com alguns belíssimos travellings de “horizontes horizontais sendo capturados na horizontalidade”, como o que se entenderia a parceria mais justa a esse modelo de execução mecânica.

Canijo “inventa” o som aqui nesse seu trabalho: a partir dos momentos das conversas em paralelo ganhando espaço fraternal na banda sonora, e com o adendo dos sons de vizinhança barulhenta (estamos vivendo as periferias de Lisboa, de paredes finas e pessoas com mais necessidade humana de falar, onde os palavrões e gírias são os ditos coloquiais que ilustram os pensamentos) e da constante TV: arriscaria que as TVs sempre presentes podem ter o papel de verdade contada sobre um mundo que parece não viver sem ela, mas arriscaria mais ao torcer para que essa utilização “exagerada” se dê como a possibilidade de evidenciar o quanto normalmente ela é fútil ao usar sem respeito a melodramiticidade. O raro tratamento das imagens ganhando o auxílio das bandas de som incomuns: o que é o cinema afinal, senão isso bem tratado?

Há uma pequena queda na “segunda” parte da história: não pelo contado ou pelas revelações que assomam em acúmulo (que são o que dão essa alma de extremos dos sentimentos sendo tratados sem medo de parecerem ridículos); nem pela rara e sensualíssima cena de relação sexual entre a jovem infeliz e o professor; ou pelo momento no karaokê… Talvez se dê justamente quando Canijo saia um tanto desse seu “mundo (in)comum” para adentrar o in(comum) de matiz violenta mais justa a um certo modelo que se repete em cinemas não tão bons quanto o seu. Mas, ao fim, com tudo aquilo pulsando nas veias e na retina, nada que atrapalhe a lembrança impressionada que ficará. E viva esse cinema português, que parece de Marte, quando se pensa nas tradições de lá, mas que tem vindo tão bom e em quantidade (no ocidente) somente quando de lá.

OLHARES BRASIL

Tudo o que Deus Criou, de André da Costa Pinto. Brasil, 2012, HD, colorido, 105 min, ficção [Foto 5]

Não há como pensar no jovem André da Costa Pinto sem associá-lo ao momento “nascedouro” do curta-metragem na Paraíba há coisa de poucos anos. Como não é possível desassociá-lo do trato de um certo “submundo” em suas tramas, até então curtistas.

Esse submundo que tanto o incentivou a realizar trata para além da questão da homossexualidade, da questão do mundo dos travestis. Na realidade ele sempre costurou as questões, e modo a fazer de seus trabalhos campo possível de cobrança das outras partes da sociedade diante das injustiças cometidas a seres humanos como todos os outros deveriam ser. Usou seu cinema até aqui para reproduzir casos reais, colocando em seus trabalhos curtos algo também se assemelha ao discurso teatral ou didático. Sempre correndo um grande risco por tal adoção narrativa.

Mas quando ele chega ao longa, onde tudo pode ganhar o indesejado apelo de parecer esticado a mais se não tiver assunto e modos diversos de “narrar”, alguns modos de execução acabaram por parecer artificiais a mais do que se aceitava nos tempos curtos. E é disso que sofre muito Tudo o que Deus Criou. Filme que tecnicamente se resolve de forma bem superior ao que ele fazia nos curtas: realmente bem filmado, com opções de ligações que facilitam o trânsito entre as partes (bom no fluxo narrativo), rigidez em algumas opções estéticas… Mas que já falha também em algo que pode ser considerado de questão técnica: que são algumas músicas criadas para ilustrar instantes específicos (o do vestido vermelho na cama, por exemplo), que contam o que se vê, mas com qualidade menor, acabando por fazer de tais momentos, também, algo que não funciona bem imageticamente – são instantes artificiais demais, nascidos de onde não de quis isso por parte dele.

Outra situação que complica é essa do didatismo, do contar teatralmente sobre dramas complexos, ou sobre as questões mais pertinentes: que mostradas por imagens poderiam ser melhores, se isoladas do texto. E problemas com algumas das atuações, que se impõem de modo over demais (e novamente pressentindo que essa não era uma opção estética de André, mas sim um equívoco), ou amadoras a incomodar. É o início do diretor num terreno que deixa muito mais evidentes os problemas. Há tempo…

JANELA INTERNACIONAL – Curtas (programa 3)

Memórias Externas de Uma Mulher Serrilhada, de Eduardo KIshimoto. Brasil, 2011, 35mm, colorido, 15, ficção [Foto 6]

Seria muito cômodo, e até um tanto covarde, enveredar pelo curta Memórias de uma Mulher Serrilhada falando de sua confecção sob olhares subjetivos “somente” como um grande e corajoso achado. Já que Eduardo Kishimoto optou por diversos modelos de questionamentos no curta – que vão desde o se deixar devassar que as modernidades nos propõem quase que como moeda de troca, dando de volta um maravilhar que insere a todos em todos os cantos e recantos, mesmo em se correndo o risco de não se poder controlar os desenrolares (já que esse “maravilhar” trafega por vias nada concretas, portanto, sem anteparos ou muretas para tentarem nos frear quando dos inevitáveis escorregões), até a certeza de que imbuídos com os poderes, novos deuses, podemos dispensar bons sensos sem o risco de jamais sairmos feridos, não total e fragilmente humanos seríamos, portanto -, por diversas esferas que têm como traços de união as ondas e mecanismos que a cibernética em seu estágio nos “oferece”, nada mais “comum” do que construí-lo utilizando variedades de captadores e recursos de computador, deixando com que as diversas subjetividades que por ele transitarão tomem as “rédeas”. Simples assim: não?

Genial assim. Pois o ato de aparentemente ter abandonado o comando em benefício de justeza mais apropriada para o que o filme relata – que é o mundo virtual percebido como um manipulador de incautos (somos quase todos hoje em dia), aprisionador, determinador, que mesmo quando machuca profundamente incita outros novos na seara a continuar agindo sob seus ditames (a cena final, onde a reação dos que estão na rua digitalmente fotografando tudo é justamente uma constatação de que os feridos sucumbirão, mas novos incautos maravilhados surgirão – e isso quase numa PG) -, na realidade só pode ser assim pensado por determinação dele sobre os rumos que pretendia seguir.

O que ocorre é que tudo é executado como um grande e sofisticado truque. E truque, aqui, não tem a conotação negativa que normalmente lhe é inferida, mas uma condição de manipulação elaborada e rara de um processo pensado para fixar-se de modo muito mais forte. Isso se traduz na capacidade de Eduardo em adotar variados mecanismos para criar a trama de imagens diversas (de origens e de aspectos significativos distintos): é algo raro, ousado, quase inédito pela amplidão de variantes tentadas (e absolutamente alcançadas; e totalmente concretizadas), principalmente em tão escasso espaço de tempo. O mundo não é pior do que era; o homem não é menos cordial, ou mais bárbaro: o que ocorre é que há essa maluca e nova tentação revolucionária aí pra seduzir, e o diretor percebeu isso nos atos dos seres seduzidos por ela.

Cid Nader viajou a Curitiba a convite da organização do evento.