CID NADER ANALISA CURTAS EXIBIDOS EM OURO PRETO.
Editor do site Cinequanon, o crítico de cinema Cid Nader, um dos maiores especialistas em curtas-metragens da imprensa brasileira, analisa os curtas exibidos no primeiro dia da 7a. CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Veja:
Elefante Invisível, de Elisa Ratts. FICÇÃO, COR, DIGITAL, 13MIN, 2012, CE.
Jogar uma história para o quinhão do insondável ou inidentificável via olhadas e avaliações mais pé no chão é recurso que artes sempre buscam representar, e em boa parte das vezes como representação onírica: mesmo que tal uso dos sonhos nas subintenções nãor represente especificamente a peça biológica que vasculha setores do cérebro, e sim representação basicamente metafórica. No mundo dos curtas-metragens (no cinema bastante, mas aqui, no cinema de filmes curtos, em especial), fugir de linearidades e entendimentos “pé no chão” significa quase uma obrigatoriedade, dado o espaço concedido que incita à invenção: certo, pra não parecer exagero, buscar outras linhas de narração significa convite sedutor.
A garota Elisa Ratts subiu ao palco e avisou que seu Elefante Invisível era resultado de trabalho de conclusão de curso – ou algo próximo disso, mas com certeza de escola -, e quando se adentra no filme (ou se é capturado por ele, principalmente pelo trabalho de som) acende a esperança de que algo novo está surgindo com boas possibilidades. A história gira em torno de um moleque que talvez “sofra” das ações que sonhos poderosos podem causar em período de adolescência, ou talvez esteja passando bem acordado pelas ações naturais que interferem nos modos de pensamentos e atos a serem assumidos. O que importa principalmente – indo além das situações que engendram indefinições a serem as orientações repassadas ao público – é que o filme reflete grande conhecimento das mecânicas básicas (filmagem e edição), mostrando-se competente por isso, mas fazendo aposta inesperada no poder dos vários sons, que são os que representam os grandes trunfos de adensamento ou relaxamento das partes.
Se há filmes que se beneficiam de experimentações de texturas e cores, pode-se dizer que a diretora imaginou um outro que define seu interesse em texturas também, mas impalpáveis, já que motivadas e reveladas pela audição.
Primas/, de Salomão Santana. FICÇÃO, COR, DIGITAL, 4MIN, 2012, CE.
O quanto Salomão Santana foi direto em seu curta Matrysoshka (2009) – quando contava do isolamento que sentia por ter se deslocado do Ceará para Potugal, e da não readaptação na volta em busca de sua essência -, se mostrou avesso a qualquer modelo de explicação nesse Primas. Que é trabalho montado com imagens de arquivo, onde duas garotas são filmadas por poucos segundos entrando e saindo da água (sabe-se pela sinopse que morreram afogadas no açude de Orós) , deitando-se areia, sendo notadas fugazmente pelas lentes para, depois, ver-se a cena repetida e repetida, com sutis desvios de atenções em cada trecho, para pequenas particularidades das situações.
Nota-se que é de trabalho experimental que se trata, e de que tudo se dá com pouquíssimas imagens: como se fosse obra de reverência ao que restou de alguém que partiu. Para aumentar de estranheza que o filme passa (por não se sentir, o diretor, em nenhum momento na obrigação de explicar – o que direciona as atenções automaticamente a tentar decifrá-lo pelos signos estéticos tentados), há a inserção de diversas frases padrão, quase que proclamadas, como se fossem avisos espirituais ou como mote de autoajuda… Radicalidade que acentua proposta imagética que já não era comum. Creio, particularmente, que mereça a atenção: se não tanto pelo obtido, pela coragem de não se entregar a salmaleques quando optou por ser incomum.
Giap – Memórias Centenárias da Resistência, de Sílvio Tendler. DOCUMENTÁRIO, COR, DIGITAL, 16MIN, 2011, RJ.
Que Sílvio Tenler por muitas vezes parece alguém que restou deslocado nos tempos atuais, em que o capitalismo execrável venceu a sereia que cantava bela (mas foi maltratada) do socialismo, ah isso não resta dúvida alguma a cada trabalho que lança na praça. Neste curta – especificamente -, trabalhando num formato que não é o seu mais habitual, trouxe momentos gravados em 2003 com um ex-general vietnamita de nome Giap, que lutou na guerra de libertação da Indochina contra os colonizadores franceses, e mais tarde contra os EUA que temiam o avanço do comunismo soviético sobre aquela região do planeta. Com certeza muitos dos dados fornecidos se revelaram interessantes, e com auxílio de algumas imagens de arquivo (que não as utilizadas pelo ocidente, já que filmagens feitas pelos de lá) seriam o suficiente para trazer interesse raro, prum filme raro no tempo, e de interesse cada vez mais raro pela falta de divulgação ou prospecção.
Mas há o engajamento excessivo de Tendler à causa, que acaba pesando na aceitação total do trabalho: pois ao adotar o discurso à moda antiga e panfletária, com frases ufanistas enfeitando a tela como se fosse propaganda de jornal mimeografado, e jeito de a qualquer momento saltariam dela (da tela) os marinheiros do Encouraçado Potemkin. Até pode render admiração tal devoção dele, mas é algo que atrapalha a arte em que trabalha: e é dessa arte que falamos.
Nelson em Ouro Preto , de Fábio Carvalho. DOCUMENTÁRIO, COR, DIGITAL, 13MIN, 2012, MG.
Fábio Carvalho foi buscar imagens gravadas quase no meio dos anos 90 para construir uma homenagem a Nelson Pereira dos Santos. Imagens feitas por ele mesmo na cidade de Ouro Preto. Acontece que muito do obtido sofreu demais na hora da compreensão do que era dito: tanto nas palavras de Nelson como as das pessoas que o acompanham durante o trajeto de sua visita. E se isso complica um mergulho mais sensibilizado no filme – como devem ser as sensações que moveram o diretor a concretizar a edição desses trechos tanto tempo depois -, algo do que se diz e é compreendido também não contribui para a empatia: principalmente os ditos proferidos por Anemary Soares,que tenta por todo o tempo se fazer uma espécie de escada para que houvesse fluidez nas conversas.
Acabou resultando algo que tem seu valor maior na utilização de trechos de Amuleto de Ogum, e que peca justamente na não obtenção de empatia ao momento da figura do diretor, “ao vivo”, e se revelando como os seus filmes teoricamente não conseguiriam.
Dizem que os Cães Veem Coisas, de Guto Parente. FICÇÃO, COR, DIGITAL, 12MIN, 2012, CE. [Foto)
Parece que há quase uma obsessão nordestina nos ataques ao aburguesamento de suas grandes cidades – fato nascido e que virou filme primeiro em Recife, e que já há um tempinho transpôs fronteiras para também estabelecer-se lá por Fortaleza. Guto Parente – ligado por sangue e trejeitos à turma da Alumbramento – construiu aqui mais um trabalho (desta vez no formato curto – eles variam) que sob nenhuma intenção de querer ser vaticinador ou professoral, ou menos ainda de exemplo bem identificável (no signos aglutinados que poderiam formar denúncia linear), consegue dar uma desmontada, uma desancada, respeitável nas pessoas que fazem do “subir de vida” sua maior meta, objeto de desejo e modo de esnobar os “comuns”.
O curta é excessivamente “rico” em imagens e sons, poluído nas suas ligações e nas “tramas” criadas para fazer razão ao que queria ser dito, dinâmico na fluidez, e evidentemente (propositalmente descaradamente) reverencial à piscina como elemento comum e repetido como símbolo maior desse mal que acomete os de bolsos cheios e almas esvaziadas: com toda a capacidade de quem sabe o que fazer com as câmeras e na montagem, a ida de Guto aos extremos rendeu algo que acabou por escrachar de modo muito mais eficaz, já que não era um ataque “somente”, mas cinema bem feito, fazendo a função. Quando carrega a mão e aproxima as lentes de algumas das figuras bastante caricaturais próximo do final (no momento em que acontece “um acidente” e as atenções desviam-se do superficial por alguns instantes – quando os cachorros ganham sua vez mais importante que outros), a tela se enche de cinema na mais pura das essências, porque as imagens exibem matizes e viço que só se obtém por quem sabe o que faz.
Se a ideia era a de “brincar” jocosamente com essas situações inaceitáveis, um tanto de cenas criadas se encarregaram disso: a das mulheres empetecadas cantando, as das pessoas sentadas à beira d’água, evidentemente a dos gordos dentro da piscina, as das bebidas. Se outra era a de dar cara às reverências, o amontoado de situações à Lucrecia Martel não deixou dúvidas ou fingimentos quanto a isso. E se tudo – mesmo tendo esse mote estranho de gente que se imagina “diferenciada” se ostentando e às suas posses como o que conduz a intenção principal – se deu sob padrões pouco usuais, quase “fabulares”, as certezas emprestadas após constatados os resultados não deixam dúvidas de que vale a pena parecer se repetir: quando não é isso realmente o que está ocorrendo, e sim mais um capítulo bem contado da história.
Eu, Zumbi – Coisas de Bar, Ou Passa a Régua e Traz a Conta, de Alexander S. Buck. EXPERIMENTAL, COR, DIGITAL, 8MIN, 2011, ES. [Foto 9]
Este curta é uma sacada dos tempos atuais, realizado por gente antenada nas mídias novas e captação (câmeras de fotografar que filmam, ou das ligeiras), e também ligadas às mídias novas de divulgação (redes sociais e internet na veia). Tem suas virtudes nas ideias pensadas de filmar a situação imaginada – o que rende diversos ângulos de observação à mesma situação e em variados instantes -, e na edição do material angariado: que era de diversos modos de olhar e captados pro mãos mais ou menos trêmulas. Por esses contrastes, algumas imagens resultaram inclusive bastante bonitas pictoricamente: principalmente quando se corre em desespero com as luzes artificiais criando raios de cores interessantes.
O fato de tudo ser explicado ao final talvez seja o que mais em incomode em particular: pois dá luz e razão a algo que nem é tão incompreensível assim pelo modo que é contado e avolumado. E aparenta ter tido nessa opção de revelação dos trâmites, a intenção de fazer perceber – mais do que a inanidade que pode ser gerada na internet – um “incrível’ suposto alcance. Seria mais bacana se tivesse ficado nas explicações que se concretizaram dentro dos procedimentos de cinema.

