CINEOP: CINEMATECA É QUESTIONADA E SECRETÁRIA DO AUDIOVISUAL TROPEÇA NAS PALAVRAS.

Caminhar por Ouro Preto não é para amadores. Ladeiras descomunais, subidas e descidas incessantes e paralelepípedos escorregadios exigem o máximo das panturrilhas de quem se aventura pelos caminhos históricos da antiga Vila Rica. Chego a pensar até que talvez a Inconfidência Mineira tivesse dado certo se a cidade fosse plana: Joaquim José, Cláudio Manoel, Thomás Antonio e seus amigos teriam conspirado contra a coroa portuguesa com mais facilidade e rapidez se não tivessem tantas ladeiras para subir e descer e tantas pedras para escorregar.

Significativamente, o CineOP – 7ª. Mostra de Cinema de Ouro Preto acompanha a geografia da cidade. Por um lado, o evento tem o sossego e a generosidade de um festival que não é competitivo. Tranquila e solene como as inabaláveis igrejas ouropretenses, a Mostra não se perde por entre as tensões que os eventos competitivos inevitavelmente provocam. “Quem vai ser o melhor ator? Qual será o melhor filme? E o melhor diretor?”. Para o bem do cinema, nada disso existe por aqui. O que vale é o filme, a ideia, o conceito. Sempre achei que quem vai “ganhar” ou “perder” é uma discussão muito mais apropriada para o universo esportivo que para o universo cinematográfico. Ponto para a Universo Produção, empresa organizadora do CineOP.

Por outro lado, assim como a tranquilidade de uma praça de Ouro Preto pode ser subitamente abalada por um despencar de ladeira, o evento também encontra pedras em seu caminho. Como aconteceu na noite de ontem (23/06), quando a exibição de “O Bravo Guerreiro”, foi interrompida por um motivo, digamos, prosaico: a cópia enviada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro simplesmente não tinha o último rolo do filme. Como já dizia o mineiro Fernando Brant, “Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?”. Ficou na plateia uma sensação de coito interrompido, com a abrupta interrupção do filme histórico de Gustavo Dahl.

Outra Cinemateca, a Brasileira, também foi bastante lembrada aqui no CineOP. Durante uma mesa de debates, o pesquisador e professor da Universidade Federal Fluminense, Rafael de Luna, atacou vigorosamente a instituição comandada por Carlos Magalhães, argumentando que a Cinemateca Brasileira dificulta e encarece a pesquisa de filmes brasileiros, cobrando caro e centralizando excessivamente seus serviços, quando deveria fazer exatamente o contrário.
E para fechar um dia polêmico, Ana Paula Santana, da Secretaria do Audiovisual, declarou que “se a discussão é termos políticas culturais isonômicas, então essa discussão não é com esta Secretaria”. Traduzindo do politiquês para o português, a afirmação de Ana Paula simplesmente confirma e legitima uma até então suposta política de favorecimentos da SAV. Provavelmente ela ainda vai argumentar que não foi isso exatamente o que ela quis dizer.

Antecipando o que meteorologicamente só aconteceria na manhã deste domingo, as discussões de sábado fecharam o tempo no CineOP. A Mostra prossegue hoje com uma ampla programação de curtas e médias-metragens, a exibição do longa “Barra Pesada”, que Reginaldo Farias dirigiu em 1977. E, claro, com mais debates, sinalizando mais paralelepípedos escorregadios.

Celso Sabadin viajou a Ouro Preto a convite da organização eo evento.