GRAMADO TEM BALANÇO POSITIVO. XUXA NUNCA MAIS!

Ao chegar aos seus 40 anos, o Festival de Gramado vive uma encruzilhada: ou se leva a sério, trazendo bons filmes e debates; ou se infantiliza, enfatizando a badalação, o tapete vermelho e as celebridades frívolas. Em outas palavras, ou se torna um evento Cultural, ou se torna um evento Turístico. Conciliar ambas as partes? Difícil, muito difícil.

Este ano, por exemplo, Gramado tomou a decisão (na minha opinião, acertada) de priorizar o Cinema. A qualidade dos filmes exibidos subiu drasticamente, e os debates estiveram lotados. No mínimo três ótimos filmes foram exibidos na Mostra Competitiva Brasileira: Super Nada, O Que Se Move e O Som ao Redor. Sendo que os dois últimos vieram de cineastas estreantes no longa-metragem, o que sinaliza a boa qualidade desta nova safra que vem chegando.

A Mostra Latina não foi das mais notáveis. Na verdade, foi bem fraca, mas há muito potencial para melhorar, nos próximos anos, desde que a curadoria tenha mais tempo para trabalhar e que possa convidar os filmes, ao invés de simplesmente aguardar pelas inscrições, conforme manda o regulamento atual do evento. Alterar este regulamento poderia ser bem saudável.

Os curtas também tiveram um nível mais do que satisfatório, e o longas gaúchos, fora de competição, tiveram um espaço ao mesmo tempo amplo e acolhedor no horário vespertino. Comparativamente a anos anteriores, foi um banho. Viva o Cinema!

Porém, conversas informais (sem nenhum caráter de pesquisa) revelaram que o comércio gramadense não aprovou as mudanças. Com menos celebridades circulando pela cidade, o tapete vermelho esvaziou-se, o corre-corre e a gritaria dos fãs diminuiu, e as vendas acompanharam este movimento de queda. Sem dúvida, o Festival foi menos histérico que os anteriores, e muito mais profissional. Caberá à nova organização tentar equilibrar esta equação, o que não é nada fácil.

O júri oficial, por sua vez, perdeu a chance de consagrar o cinema de qualidade, e optou por premiar o fraco “Colegas” (foto), filme de fácil apelo comercial (foi o mais aplaudido de todo o evento), mas um dos piores em se tratando de Cinema propriamente dito.

Ah, e as minhas hérnias de disco agradecem de todo o coração a troca das poltronas do cinema, já que havia 25 anos que as anteriores reinavam soberanas, estourando as colunas e a paciência dos que preferem ver os filmes à badalação do saguão.

Em resumo, o primeiro passo para que Gramado volte a ter a importância e a seriedade de décadas anteriores foi dado com louvor. Que venha a 41ª edição, sempre com mais e melhores filmes. Por que embora muita gente negue, o Festival, antes de mais nada, é de Cinema.
Xuxa nunca mais!

Veja os vencedores:

Longa-metragem brasileiro

Melhor Desenho de Som – “O Som ao Redor”
Melhor Trilha Musical – “Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!”
Melhor Direção de Arte- “Colegas”
Melhor Montagem – “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”
Melhor Fotografia – “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”
Melhor Roteiro – “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”
Melhor Atriz – Fernanda Vianna de “O Que Se Move”
Melhor Ator – Marat Descartes de “Super Nada”
Prêmio Especial do Júri – Ariel Goldenberg, Breno Viola, Rita Pokk de “Colegas”
Melhor Longa Júri Popular – “O Som ao Redor”
Melhor Diretor – Kleber Mendonça Filho de “O Som ao Redor”
Melhor Filme – “Colegas”

Júri da Crítica

Melhor Curta-metragem – “Menino do Cinco”
Melhor Longa Estrangeiro – “Artigas, La Redota”
Melhor Longa Brasileiro – “O Som ao Redor”

Longa-metragem Estrangeiro

Melhor Fotografia – “Leontina”
Melhor Roteiro – “Vinci”
Melhor Ator – Jorge Esmoris de “Artigas, La Redota”
Menção Especial – “Vinci”
Melhor Longa Júri Popular – “Artigas, La Redota”
Melhor Diretor – Cesar Charlone de “Artigas, La Redota”
Melhor Filme – “Artigas, La Redota”

Curtas-metragens

Melhor desenho de som – “Casa Afogada”
Melhor Trilha Musical – “Funeral à Cigana”
Melhor Direção de Arte – “Casa Afogada”
Melhor Montagem – “Di Melo, o Imorrível”
Melhor Fotografia – “Casa Afogada”
Melhor Roteiro – “Menino do Cinco”
Melhor Atriz – Sabrina Greve, de “O Duplo”
Melhor Ator – Thomas Vinícius de Oliveira, de “Menino do Cinco”
Prêmio Especial do Júri- “A Mão que Afaga”
Melhor Curta Júri Popular – “Menino do Cinco”
Melhor Diretor – Gilson Vargas, por “Casa Afogada”
Melhor Filme – “Menino do Cinco”
Prêmio Canal Brasil – Melhor Curta – “Menino do Cinco”

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Evento.
Foto de Edison Vara.