BRASÍLIA 2012: “ELES VOLTAM” FALA DO RETORNO ACONCHEGANTE AO BERÇO.
Neste ano me dedicarei muito mais aos filmes. Tentarei deixar debates – quase todos de lado. Irei mais a Brasília. Serei mais festival e da cidade, bem menos do todo que o entorna sem ser obra pronta.
MOSTRA COMPETITIVA DOCUMENTÁRTIO – CURTA
Câmara Escura, de Marcelo Pedroso. Documentário, cor, digital, 25min, PE, 2012
Tão tremenda quanto simples a ideia que Marcelo Pedroso colocou em prática para, mais uma vez, tentar averiguação por imagens do quanto são discrepantes as certezas de cada um. Principalmente nesses tempos modernos (sempre foi assim, na realidade, mas ele é desses tempos, e suas ferramentas ligeiras permitem maneiras diversas de observação de fatores que são denunciadores dos estratos sociais funcionando cada um a seu bel contento), onde o aburguesamento parece bater forte demais na cara das pessoas com um pouquinho que seja de bom senso.
Pedroso, à sua maneira – e talvez tentando ver essa segmentação por aspectos mais “espalhados” do que se fossem “fenômenos somente recifenses”, como tem sido comum em infinidade de trabalhos (quase sempre de altíssima qualidade) vindos de lá -, volta-se com artifícios engendrados previamente para tentar arrancar reações que se desprendem dos observados por ele, como se fossem camadas de feridas que caem naturalmente sem que os “doentes” se deem conta do que acontece. Um artifício – o mais “comum” e imprescindível deflagrador – consiste na utilização do conceito da câmera escura; outro artifício reside na surpresa – esperada e desejada, já que a intenção é a da observação sobre quase certezas – que decorreriam na volta que ele empreende em busca de palavras ao “vivo” e imagens captadas involuntariamente; e um terceiro – e esse o de desejável procedimento fílmico, já que é o da edição -, onde finalmente consegue organizar por imagens os dados: dados que extrapolam os da improvisação para serem ajuntados a boas sacadas do todo (um exemplo é quando o diretor entra numa casa para ouvir pitos, sobre medos de “sequestro e bombas”, sobre diretito à privacidade e à imagem, enquanto a câmera que permanece do lado externo da residência levanta “seu olhar” para focar essas execráveis e invasoras câmeras de segurança).
O que se constata – mais uma vez em um seu trabalho – é que há noções muito diversas de direitos, cada um em sua camada social, e que os que mais se “empenharam” para criar as razões de temores (os que enriquecem, modificam os locais, expulsam as pessoas e deformam a arquitetura), não tem noção mínima (ou sabe-se lá o quê) de que reclamam sobre atos e fatos que eles executam a cada “respirada”, a cada comentário. Preciso!
MOSTRA COMPETITIVA DOCUMENTÁRIO – LONGA
Um Filme Para Dirceu, de Ana Johann. Documentário, cor, digital, 80min, PR, 2012. (FOTO 2)
A figura de Dirceu Cieslinski talvez seja a melhor representação do que o filme de Ana Johann resultou. Músico do interior de Santa Catarina, que sonha viver de tocar gaita (sanfona, acordeão), teve grave problema de saúde que o deixou com problemas nas pernas, mulherengo, desejoso obsessivo de fazer um filme para contar sua própria vida, sempre atrás da grana para a sobrevivência, e hiperativo (no sentido daquelas pessoas que estão sempre a mil, rindo a mais, se expressando e se expondo a mais, com opiniões sempre contundentes, muito dono dos espaços por onde transita…).
] A diretora se interessou pela figura e resolveu “segui-lo” para fazer dele um documentário – algo que ele aceita, já que ideia de fazer um autofilme partiu dele mesmo, que saiu em busca de um diretor para concretizá-lo, chegando em Ana, finalmente, que aos poucos consegue dissuadi-lo da ideia de concretização de uma ficção -, como tem cada vez mais se tornado comum a partir das facilidades proporcionadas pela utilização dos equipamentos ligeiros, e com a derivação das intenções na direção de retratar alguém de pouco conhecimento em aspectos mais gerais: como que seguindo uma linha bastante comum – tão justa quando duvidosa – hoje em dia que faz dos próprios umbigos algo de interessa à divulgação ampliada.
Tecnicamente o trabalho tem momentos interessantes – há o início, com “janela forjada” e maticidades específicas a se imaginar um filme de ficção sendo iniciado; há boas insinuações curiosas (com câmera esperta) sobre situações que não seriam as mais comuns para serem retratadas; bom tratamento no som; e trechos de edição que criam boa dinâmica… -, e no princípio se compra a ideia de que todo o trabalho fluirá de modo atraente. Mas a figura do próprio Dirceu, simpática e sorridente o tempo apesar dos problemas, como opção de foco único do doc, passa a tornar o acompanhamento algo com um tanto de carga de sofrimento, de angústia, embutida, gerando o desejo de que ele tome um pouco de prumo e descomplique um tanto sua vida.
Óbvio que figuras complexas tendem a gerar mais possibilidades de trânsito e são sempre desejáveis para que as nuances ganhem espaço, mas Ana, ou por imperícia (com certeza um tanto), ou por estar demais atrelada ao objeto de seu foco (Dirceu), não consegue escapar da maldita armadilha da repetição sobre o tema enfocado, esquecendo-se de variantes para que a narrativa pudesse manter padrão de atração novidadeira. O que acaba por fazer com que o filme, a partir de um certo trecho, pareça estar espanado, girando em falso, passando a impressão de que três anos de “perseguição” não foram suficientes para arrancar elementos a mais (porque não havia elementos a mais para serem arrancados). E a maldita armadilha do querer preencher o tempo inverte a atração e expectativa inicial, causando a cada minuto o desejo de que tudo se encerre, porque se tem certeza de que não há mais nada a ser dito. Pareceu, ao final, tempo perdido, pelo excesso do utilizado: o que sepultou algumas boas impressões.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – ANIMAÇÃO
Linear, de Amir Admonii. Documentário, cor, digital, 80min, PR, 2012. (FOTO 3)
Já dizia uma máxima da humanidade que “uma ideia boa vale muito mais do que quaisquer esforços físicos hercúleos”. Ninguém disse isso? Bem, está dito agora e cabe como uma luva (essa já disseram) nessa animação muito bem pensada, e muito bem realizada lá com seu stop-motion, alguns truques básicos de cinema e 3D. Imaginar uma pequena criatura como foi feito aqui, e fazer desse detalhe tudo o que mais importa para a cooptação do espectador, é joia a não ser desprezada. Muito cuidadosa na movimentação do minúsculo personagem (isso quer dizer que todos os frames necessários por segundo, para fazer crença na velocidade do andar daquelas perninhas, foram utilizados sem “vagabundagem”), a animação tem como mote algo que só poderia surgir nas cabeça de algum animador: o dia no qual que o cinema de gente de verdade perceber o quão fértil é a cabeça desses caras, a arte dará saltos de qualidade e um monte de gente perderá os empregos. Brincadeiras à parte, é curta para assistir e aproveitar, não para comentar por chatas linhas escritas.
Talvez tanto esforço e dedicação em trabalho tão “lúcido” visualmente merecesse um tanto mais de capricho justamente na cena final, na elaboração dos carrinhos. Mas nada que desfaça a grande impressão deixada.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – CURTA
Canção Para Minha Irmã, de Pedro Severien. Ficção, cor, digital, 18min, PE, 2012. (FOTO 4)
Há muito do chinês Jia Zhang Khe nesse curta do tão distante (em relação à China, não conceitualmente e nem no modo de pensar cinema) Pernambuco. A observação de individualidades humanas sendo relativizadas na condição de justaposição ao espaço físico em degradação (ou degradado por fenômenos naturais,como foi o caso da grande enchente de 2010 em boa parte do estado pernambucano), com evidente notação de que o olhar para o interior dos seres que comporão e respirarão no ambiente ainda mantém vicissitudes que avançam sobre as que referem ao sofrimento (mas sem deixar de dar quinhão vital a esses sofrimentos).
Como Jia podia colocar um edifício elevando ao céu qual nave espacial desavisada de sua condição de concreto na cidade que vai sendo demolida, aqui, mais pertinho, no curta, Pedro Severien embute tal modelo de estranhamento (na realidade a fuga ao contar a, justamente, realidade da história, que merece escapes para não se mostrar “monotemática” nas lamurias) na personagem da irmã do preso que deverá voltar para a prisão (aquela das grades e encarceramento principalmente físico), com relato que fala de paixão e tesão desenfreada,mas por alaguem que é tão (ao olhar comum) tão estranho quando a nave-prédio.
A beleza de Canção Para Minha Irmã reside na tristeza de situações que se embrenham por várias vias, mas também, e principalmente, na maneira desordenada e “alienada” (a nada linear) de evidenciar os sentimentos ante situação que exige fugas para que se sobreviva a ela. O corte que faz da semificção um semidocumentário (sim, tudo ficcional, mas com atitude de edição que diversifica e quebra modos narrativos), por exemplo, é tão justo quanto o início, ou quanto o telefonema para explicar da não volta à prisão: e dessas variações que deveria se nutrir muito mais o cinema curtista.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – LONGA
Eles Voltam, de Marcelo Lordello. Ficção, cor, 35mm, 100min, PE, 2012. (FOTO 5)
Seria até razoável definir Eles Voltam como uma “fábula” dos tempos em que as estradas são entupidas por ruidosos caminhões e carros; ou onde, ao invés de fadas encantatórias a se oferecer como a chance de recontato com o mundo seguro, um celular (ou smartfone) pode tomar essa posição como o único ponto de contato que se oferece possível para alcançar o outro lado (onde está a segurança, que no caso aqui seria nas figuras dos pais de Cris); de forma a não ter de enfrentar as agruras do calçamento irregular e o ar quente. Seria fácil entender que a jornada forçada que a garota de 12 anos terá de percorrer, servirá como apanhado de motes apontadores onde, a partir dela (a tal jornada), a garota crescerá, aprenderá, perceberá que o aconchego que é tão discutido nessa fase da vida tem de ser cultivado e tal.
Marcelo Lordello, na realidade, até confecciona padrões fabulares para construir essa caminhada de Cris, mas, como bom pernambucano que é (e digo isso motivado pelo exemplo quase incessante do cinema de lá, que vai para o mundo com preocupações sociais raras de serem tocadas, por vias e instrumentos puramente cinematográficos, criando obras que podem ser lidas e compreendidas por diversas camadas possíveis), atenta aos atos adolescentes e seus questionamentos, sim, fala da volta desejada e do aconchego do berço que são tão caros ao espírito quanto reencontrados, mas não esquece de imiscuir na trama riquezas que a fazem bem mais “tocável” do que “somente” o mundo idílico lendário permite.
A garota e seu irmão (um pouco mais velho) são deixados na estrada e não se sabe a razão: se compreenderá rapidamente, numa camada mais superficial, que atitude gerada pelo fato de agirem como adolescentes. A partir daí, a volta, o regresso, o reencontro se oferecem como elementos desejados acima de tudo, e toda e qualquer ação fará pensar no final que será emprestado. Mas, nesse meio tempo, entre fadas de ondas curtas e esperanças, os fios da trama vão se revelando de diversas origens e texturas: passa a haver a interação dela com pessoas (ou seres elementais tão importantes como fadas, mas de outros estratos da natureza) que a avaliarão como uma peça muito distinta delas mesmas, mas que agirão como agiriam com qualquer um dos seus. O filme, fabular, sim, passará a acompanhar os desvalidos de lá: os que são isolados pelas pessoas da mesma classe social de Cris, mas que agem de forma natural quando diante “do inimigo”. E sem que essa interação ou auxílio prestado se faça de maneira a fazer do pobre o “ser bom e inquestionável”, e o avesso recheado de capetas que não perceberão as sutilezas.
Para além – e dentro dessa saudável teimosia dos de Pernambuco -, aparece num dado momento, bem já próximo do final, a preocupação deles com a perda da cidade de Recife de verdade (onde o centro não é habitado pelos abastados, que ainda por cima encerram a visão do mar, permitindo somente brechas para tal), e a constatação de que há isolamentos que se fazem para além da diferenciação na escala social.
A pontuação do andamento de Eles Voltam, que é lenta (com atuações lentas e quase sussurradas por diversos instantes) e calma, acorda de modo raro com o lento avanço/despertar de Cris. Essa pontuação emprega ritmo que exige atenção e paciência extremas, ao mesmo tempo em que constrói (e é óbvio isso quando se tem calma) belezas raras: visuais e essenciais. Voltando a pensá-lo como fábula, tal ritmo é justíssimo para fazer a captura da plateia sem que os solavancos e buracos da estrada atrapalhem uma espécie de flanar. É filme belo, que consegue tratar com camadas diversas, com tramas múltiplas: mas sem necessidade de raspagem ou cortes de linhas para que se perceba uma após a outra. Bastando embarcar.
Cid Nader viajou a Brasília a convite da organização do evento.
Matéria cedida e publicada originalmente em www.cinequanon.art.br

