TIRADENTES 2013 – “SINAIS DE CINZA” RESGATA A OBRA DE OLNEY SÃO PAULO.

“Sinais de Cinza” resgata a obra de Olney São Paulo.
Por Celso Sabadin, de Tiradentes

Gosto de documentários que documentam. Pode parecer uma simples frase de efeito, mas não é. Na minha modesta opinião, saio gratificado de uma sessão de cinema quando vejo um documentário que realmente documenta o objeto que se propôs a documentar. Ou seja, informa, mostra, conta, exibe, provoca, faz pensar, que se apaixona pelo que está documentando, que emociona. Sem preguiça.

Em contraposição, há o documentário narcisista, até onanista, que se apaixona por si próprio, que gosta tanto de estar sendo feito que não quer cortar, que adora balançar a câmera pelo simples prazer lúdico de balançá-la, que em nome de uma suposta configuração artística se alonga indefinidamente em planos que pouco ou nada têm a dizer, pensando em seu íntimo: “Quantos minutos o filme precisa ter mesmo para eu inscrevê-lo nos editais de longa metragem?”.

Mas hoje eu quero falar de documentários que documentam. Caso do ótimo “Sinais de Cinza”, exibido ontem aqui na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O diretor baiano Henrique Dantas resgata passagens importantes da vida e da obra do cineasta Olney São Paulo, figura emblemática nos anos 60 e 70, mas que a História (“sempre contada pelos vencedores”, como lembra Dantas), se incumbiu de quase apagar. É a partir desta “memória esgarçada”, como também diz Dantas, que o filme levanta a trajetória de Olney.

“Sinais de Cinza” costura com destreza vários depoimentos de parentes de Olney e de cineastas que o vivenciaram, casos de Conceição Senna, José Carlos Avellar, Orlando Senna, Silvio Tendler e Nelson Pereira dos Santos, entre outros. Entremeia os textos com cenas de filmes (ou do que resta deles) dirigidos por Olney, poeticamente projetados sobre paredes, portas, janelas e grades que de alguma forma fizeram parte do universo do biografado. E também investiga aquele que é provavelmente o grande momento-chave da vida do cineasta: o sequestro de um avião para Cuba, onde Olney, acusado de ter sido um dos sequestradores, teria projetado um de seus filmes, proibido pela ditadura militar, para os passageiros e tripulação.

Mais do que documentar, “Sinais de Cinza” abertamente homenageia o cineasta, e inicia publicamente uma campanha (imediatamente acatada pela Mostra de Tiradentes) em busca de patrocínio pela restauração da obra de Olney, que soma 14 filmes.

Ainda não há distribuidora para o filme. Fica a dica.

Celso Sabadin viajou a Tiradentes a convite da organização do evento.