COMBATENDO HITLER COM LUZES E CÂMERAS.
Certa vez o ator Paulo José declarou que “o cinema é um assunto tão sério que deveria ser tratado como caso de segurança nacional”. Foi aplaudido. A afirmação de fato se justifica, mas está longe de ser uma novidade. Já faz muito tempo que o cinema norte-americano faz de seus filmes verdadeiros manifestos políticos, vendendo para o mundo o seu famoso “way of life”.
Um dos casos mais marcantes do cinema a serviço da política pode ser comprovado com o bem-vindo lançamento “Hollywood Contra Hitler”, distribuído pela Versátil. Trata-se de uma caixa com três dvds contendo seis longas metragens produzidos entre 1939 e 44, todos com um claro objetivo em comum: alertar a população dos EUA contra o perigo do Nazismo, para assim obter apoio popular, caso o país decidisse entrar na Segunda Guerra Mundial. Como de fato veio a decidir.
Na época, nenhuma mídia era mais eficiente que o cinema para se conquistar a opinião pública. A televisão ainda não existia, e as salas de cinema nos EUA, durante a década de 40, vendiam a impressionante quantidade de 60 milhões de ingressos a cada semana. Considerando que a população norte-americana, naquele período, girava em torno de 140 milhões de habitantes, é como se todo e qualquer habitante dos Estados Unidos, sem exceção, fosse às salas de exibição duas vezes por mês.
Quando as notícias sobre a possibilidade de um novo conflito mundial começaram a circular pela Europa, no início dos anos 30, era evidente que os donos do poder e da política começaram a visar este imenso público e as melhores formas de influenciá-lo.
Vale lembrar que embora a 2ª Guerra tivesse sido deflagrada na Europa em outubro de 1939, com Hitler invadindo a Polônia, os EUA só entrariam efetivamente no conflito em dezembro de 41, após o ataque japonês à base havaiana de Pearl Harbor. Assim, de 1933 (ano em que Hitler assume o poder na Alemanha) até
41, travou-se pelo mundo inteiro uma forte batalha ideológica que contrapunha os ideais nazistas aos libertários. Na época, o Brasil da ditadura getulista inclusive flertava com a direita nazi-fascista, mas a pressão norte-americana fez com que o país entrasse na Guerra do lado aliado.
Hollywood insuflou-se contra o Nazismo muito antes que Washington. E nem poderia ser diferente, já que historicamente os grandes estúdios cinematográficos norte-americanos
foram fundados e comandados por judeus, e a exacerbada valorização dos arianos em detrimento às demais etnias sempre foi uma das principais bandeiras de Hitler. O cinema americano não poderia ficar calado e começou a produzir seus panfletos filmados.
Os seis filmes da caixa “Hollywood Contra Hitler” eram até agora inéditos em vídeo doméstico no Brasil, não tendo sido lançados sequer na época do VHS.
São eles:
Confissões de um Espião Nazista (Confessions of a Nazi Spy, 1939). Direção de Anatole Litvak. Com Edward G. Robinson, George Sanders, Paul Lukas.
Considerado como o primeiro filme abertamente antinazista produzido em Hollywood, a obra levanta uma questão interessante e baseada em casos reais: a existência de grupos abertamente simpáticos ao Nazismo dentro dos próprios EUA, o que, vale a pena lembrar, não era ilegal naquela época.
O roteiro teria sido inspirado em relatos do agente secreto Leon G. Turrou, cujo nome não consta nos créditos por motivos óbvios (afinal, o agente era secreto) e o fato do filme ter sido totalmente escrito e produzido antes mesmo do início oficial da Guerra gerou uma grande insegurança por parte de vários profissionais do mercado que ainda não sabiam exatamente em qual lado se posicionar. Marlene Dietrich, por exemplo, sondada para atuar no filme, preferiu não fazê-lo, pois era alemã de nascimento. Havia também rumores que os simpatizantes do nazismo sabotariam a produção e retaliariam os familiares de quem dela participasse. Mas quando o assunto é Hollywood, é praticamente impossível dissociar a realidade da lenda.
De qualquer maneira, o filme foi (obviamente) proibido na Alemanha e também em vários países latino-americanos.
Na trama, agentes do governo de Hitler infiltrados em território americano cooptam um ingênuo pai de família para que ele investigue informações militares sigilosas. Embora tematicamente forte, cinematograficamente o filme torna-se pobre ao abrir mão de toda e qualquer sutileza narrativa para favorecer o didatismo panfletário. O que é compreensível para uma obra cuja proposta é muito mais catequética que artística.
O diretor Anatole Litvak mais tarde realizaria Decisão Antes do Amanhecer, Na Cova das Serpentes, Anastasia, Tudo Isso e O Céu, e Uma vida por um Fio, entre outros.
Uma Aventura em Paris (Reunion in France, 1942)
Direção de Jules Dassin. Com Joan Crawford, John Wayne.
Mais palatável ao grande público, e não por isso menos político, Uma Aventura em Paris se apoia em dois atores de forte empatia junto às plateias para transmitir sua mensagem ideológica: Joan Crawford e John Wayne.
A trama segue a pouco inovadora (mas sempre eficiente) fórmula de mostrar como Paris era maravilhosa antes da ocupação nazista e como ela se torna um inferno sob o comando de Hitler. Antes da invasão, um belo e rico casal francês faz planos para o casamento, que promete ser dos mais concorridos da cidade. Porém, após a chegada dos invasores (marcada com impactantes cenas reais), os sonhos desmoronam e dão lugar aos pesadelos. Entra em cena a figura de um jovem piloto aliado (John Wayne) que acaba não tendo função muito definida na história, e parece ter sido colocado no filme mais pela popularidade do astro que o interpreta.
O diretor Jules Dassin construiria depois uma produtiva carreira, com mais de 20 longas. Ele faleceu recentemente, em 2008, aos 97 anos. Repare na então desconhecida Ava Gardner, como figurante nas cenas da loja de roupas.
Tempestades d’Alma (The Mortal Storm, 1940)
Direção de Frank Borgaze. Com James Stewart, Margaret Sullavan, Robert Stack, Robert Young, Bonita Granville.
Provavelmente o melhor da caixa, o filme mostra um respeitado professor universitário que vive tranquilamente com a família e os amigos numa pequena cidade dos Alpes (tudo rodado em estúdio, pois a época era de contenção de verbas).
Numa certa noite de 1933, durante a animada comemoração de seu aniversário, chega a notícia: Adolf Hitler acabara de ser escolhido o novo líder da Alemanha. A novidade entusiasma a ala mais exaltada da festa (comandada por Robert Young, protagonista do antigo seriado de TV Papai Sabe Tudo) e enche de preocupações os mais moderados, principalmente o jovem estudante interpretado pelo sempre ótimo James Stewart.
Em pouco tempo, as ideias nazistas se infiltram na cidade, transformando amigos de infância em inimigos mortais, destruindo carreiras, amores e vidas. Um belo retrato do poder destrutivo da intolerância e de preconceito, venham eles de onde vierem, estejam a serviço de quem estiverem.
É marcante a cena dos alunos da juventude hitlerista que se revoltam após o professor afirmar que não há diferenças biológicas entre o sangue ariano e o sangue de qualquer outra raça.
Robert Stack, que mais tarde protagonizaria o seriado de TV Os Intocáveis, faz uma discreta porém marcante interpretação.
Horas de Tormenta (Watch on the Rhine, 1943)
Direção de Herman Shumlin. Com Bette Davis, Paul Lukas.
O mais fraco da coleção, Horas de Tormenta retoma o tema dos espiões nazistas infiltrados nos EUA. Fala de um casal que retorna a Washington após passar vários anos lutando clandestinamente contra ditaduras europeias, e passa a ser chantageado por um colaborador nazista.
O filme tem roteiro dos grandes escritores Dashiell Hammett e Lillian Hellman (casados na vida real), a partir da peça escrita por eles próprios. Cinematograficamente, porém, não funciona: perdido entre o excesso de diálogos e subtramas mal resolvidas, Horas de Tormenta acaba valendo muito mais pelo seu aspecto histórico. Concorrendo como “zebra”, Paul Lukas ganhou o Oscar de melhor ator naquele ano, superando Humphrey Bogart em Casablanca (por sinal, outro filme antinazista).
A Sétima Cruz (The Seventh Cross, 1944).
Direção de Fred Zinnemann. Com Spencer Tracy, Jessica Tandy, Hume Cronyn.
Bem antes de dirigir os clássicos Matar ou Morrer e A Um Passo da Eternidade, Fred Zinnemann realizou este denso drama de guerra sobre um grupo de sete prisioneiros que fogem de um campo de concentração. Narrada sob o ponto de vista de um homem morto (recurso que seria festejado como “novidade” seis anos depois, em Crepúsculo dos Deuses), a trama acompanha a dolorida trajetória de um deles (convincentemente vivido por Spencer Tracy), que se submete a humilhações físicas e morais em sua luta pela sobrevivência.
No elenco, as presenças de Agnes Moorehead (que anos mais tarde ficaria mundialmente conhecida como a irascível sogra de James Stephens no seriado A Feiticeira) e Jessica Tandy (personagem título de Conduzido Miss Daisy).
Os Filhos de Hitler (Hitler’s Children, 1943).
Direção de Edward Dmytryk. Com Tim Holt, Bonita Granville.
Fechado a caixa, volta o tema de pessoas que se distanciam e amores que morrem por causa da intolerância política. O filme enfoca principalmente o radicalismo da Juventude Hitlerista em sua fé cega e obsessiva pela supremacia ariana.
É neste cenário de guerra que um jovem alemão e uma garota americana vivem sua tragédia shakespeariana que resvala em Romeu e Julieta.
A direção é de Edward Dmytryk, que ironicamente após a Guerra acabou sendo preso por outro movimento de intolerância política: o Macartismo. Acusado de comunista, Dmytryk denunciou seus colegas cineastas em troca da liberdade, o que praticamente acabou com sua carreira.
Curiosamente, Os Filhos de Hitler foi um grande sucesso de público, tornando-se a maior bilheteria do ano (perdeu apenas para Aventureiro da Sorte, com Cary Grant).
O filme é o único desta coleção a explicitar o fato histórico que as origens da 2ª Guerra são encontradas no final da Primeira, quando o Tratado de Versailles humilhou a Alemanha, engendrando a vingança que explodiria poucos anos depois, em mais uma comprovação que a História é um processo cíclico.
Matéria publicada originalmente no Jornal da ABI – Associação Brasileira de Imprensa.

