JÚRI DO CINE PE COMPROMETE O FESTIVAL COM LAMBANÇA FINAL.

Um grande festival de cinema se faz com vários elementos. Um deles é a formação de um bom júri, competente, profissional, e consciente de suas atribuições. Não foi o que aconteceu na 17ª edição do Cine PE. Infelizmente, o júri foi formado por um grande número de profissionais de televisão, e não de cinema, como é desejável para um Festival de Cinema. O resultado foi desastroso, e empanou o brilho de um evento que vinha se desenvolvendo de forma tão bonita: “Vendo ou Alugo” recebeu praticamente todos os troféus (veja abaixo).
Não que o filme seja ruim, não é isso. Ele tem, sim, qualidades, e é merecedor de alguns prêmios. Mas por outro lado também é um trabalho que pouco, quase nada, acrescenta à atual moda de comédias populares que vive o nosso cinema.

Ora, festivais de cinema não são feitos para consagrar tendências já consagradas, mas sim para pensar cinema, refletir a arte, repercutir provocações, premiar instigações, tirar público e crítica da chamada zona de conforto. Ao concentrar praticamente todos os prêmios num filme que pode ser considerado “mais do mesmo”, o júri do 17º Cine PE prestou um desserviço ao cinema brasileiro.

Apesar de eu próprio ter um filme em competição, me sinto totalmente à vontade para tecer estas considerações. Em primeiro lugar porque a perplexidade foi geral: não vi quem defendesse a lambança feita pelo júri. Em segundo lugar porque não defendo, aqui, o meu filme, mas condeno as decisões feitas por um júri que desconhece a mecânica de um festival, e que provavelmente sequer lê o noticiário sobre cinema na imprensa. Se lesse, este júri saberia que o chamado “Prêmio Especial do Júri” jamais é outorgado para o mesmo filme que ganha o prêmio principal. E que menções honrosas são concedidas a filmes não premiados. É o be-a-bá mais simplório que este júri resolveu solenemente ignorar.

Não é o caso de discutir critérios técnicos. Não é o caso de dizer, por exemplo, que “Ao Ventos que Virão” tem trilha sonora e fotografia de cair o queixo e foi ignorado pelo júri. Que “Rio Doce/ CDU” igualmente apresenta uma montagem perfeita, uma fotografia deslumbrante, e uma direção extremamente segura, e que ganhou pequenos prêmios de consolação. Não, não é o caso de dissecar aqui injustiça por injustiça.

É apenas o caso de deixar registrado que o 17º Cine PE convocou um júri que se mostrou um infeliz vassalo da linguagem arcaica na neochanchada, um patético admirador do estilo Globo de (des)fazer cinema, e jogou no lixo qualquer possibilidade mais criativa de discussão cinematográfica que a seleção deste ano pudesse propor.

Só nos resta torcer para que em sua próxima edição, a décima oitava, o Cine PE alcance finalmente sua maturidade na discussão cinematográfica.

Veja a lista dos premiados:

Longas-Metragens
Melhor Filme: Vendo ou Alugo-RJ (Direção: Betse de Paula)
Melhor Diretor: Betse de Paula (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Roteiro: Betse de Paula, Maria Lucia Dahl, Julia Abreu e Mariza Leão (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Fotografia: Lauro Escorel (Giovanni Improtta-RJ)
Melhor Montagem: Marta Luz (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Edição de Som: Catarina Apolonio (Rio Doce-CDU-PE)
Melhor Trilha Sonora: Bandeira Oito, Nelson Jacobina e Jorge Mautner (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Direção de Arte: Emily Pirmez (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Ator Coadjuvante: Pedro Monteiro (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Atriz Coadjuvante: Nathalia Timberg (Vendo ou Alugo-RJ)
Melhor Ator: João Miguel (Bonitinha, mas Ordinária-RJ)
Melhor Atriz: Marieta Severo (Vendo ou Alugo-RJ)
Menção Honrosa: Beto Martins, pela Direção de Fotografia em Rio Doce-CDU (PE). *Pelo olhar e pela sensibilidade fotográficos.
Prêmio Especial: ‘Às Tartarugas’, personagens do filme Vendo ou Alugo-RJ (Direção: Betse de Paula)
Prêmio Especial da Crítica/Abracine: Vendo ou Alugo-RJ (Direção: Betse de Paula)
Prêmio do Júri Popular: Vendo ou Alugo-RJ (Direção: Betse de Paula)

CURTAS-METRAGENS

Filme: “Linear”, de Amir Admoni
Direção: André Dib (“O Fim do Filme”)
Ator: Gabriel Bodstein (“O Fim do Filme”)
Atriz: Gabriela Cerqueira (“O Fim do Filme”)
Roteiro: José Roberto Torero (“Íris”)
Fotografia: Cauê Laratta (“A Galinha que Burlou o Sistema”)
Direção de Arte: Natalia Vaz (“A Guerra dos Gibis”)
Trilha Sonora: Sergio Kafejian (“Aluga-se”)
Edição de Som: Nick Graham-Smith (“Linear”)
Montagem: Alison Zago (“A Galinha que Burlou o Sistema”)
Melhor Filme do Júri Popular: “O Fim do Filme”, de André Dib

Prêmio da Crítica: “Íris”, de Kiko Mollica

Menção Honrosa: “Sagatio, Histórias de Cinema”
Prêmio Canal Brasil: “O Filme do Filme”, de André Dib
(R$ 15 mil para aquisição de um curta-metragem a ser exibido na programação do Canal Brasil, segundo um júri formado por críticos de cinema)

Mostra Pernambuco
Melhor Filme: Entre Lua, a Casa é sua. Direção: Marcos Carvalho e Edineia Campos.*Pelo trabalho cinematográfico gráfico que alia cenografia, figurino e música. Para compor um universo lúdico e uma homenagem poética.
Menção honrosa: Os Silenciados não Mudam o Mundo. Direção: Alexandre Alencar. *Pela consistência temática e pelo bom uso dos recursos do documentário, propondo com clareza uma reflexão da importância da conscientização da educação na formação humana, para pais e educadores.

Premiações extra-oficiais:
Prêmio ABD-PE/APECI: Os Silenciados não Mudam o Mundo. Direção: Alexandre Alencar
Prêmio Genivaldo di Pace: Centro Audiovisual Norte/Nordeste
Prêmio Josué de Castro: Os Silenciados não Mudam o Mundo. Direção: Alexandre Alencar-*Documentário social