SAIBA TUDO SOBRE O PRIMEIRO DIA DE EXIBIÇÕES DO OLHAR DE CINEMA 2013.

Sei lá. O modo de organização do festival Olhar de Cinema aqui de Curitiba – a quantidade de salas utilizadas, o número enorme de filmes selecionados (sim há mesas bem bacanas programadas, oficinas, e debates com realizadores, também), a facilidade de deslocamento e a independência que temos para tal (aqui, livre da obrigatoriedade que alguns eventos impõe de termos de depender de Vans para ir e vir: e em turma)… – me leva num primeiro instante a pensar em dedicação plena às críticas (ou textos) dos trabalhos vistos. Hoje iniciarei assim, mas somente o decorrer do período me fará perceber se esse será o único caminho tomado.

Falando em decorrer do período: ontem sol com temperatura amena (na casa, diria, dos 20 graus); hoje, sábado, agora cedo quando escrevo, chutando, uns 12 graus. Que Curitiba não me decepcione, que o frio se faça presente. Também vale relatar que na comparação com o início do festival no ano passado as salas não estiveram superlotadas (como ocorreu sempre), mas nos filmes que assisti, ao menos 80 por cento da lotação: nesse evento atual está sendo cobrada a entrada: de forma quase simbólica, diria (R$5,00 a inteira, e R$1,00 para a sessão de curtas). E também vale dizer que, novamente, as projeções estiveram impecáveis (som e imagem de primeira, tanto em DCP quanto, obviamente, no 35 mm que vi)

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Tomorrow (Zavtra), de Andrey Gryazev. Rússia – Documentário – 2012 (90min).

Dos tempos modernos, onde se sabe que ideologias comunitárias ruíram de maneira acachapante; quando quem resta ainda tentando brigar e divergir do status quo (determinado basicamente pelos governos que se sustentam principalmente pela lei do mercado e do capitalismo que prega o vencer individual) é visto com olhos que duvidam, questionam e acusam. Do crer na força bruta como algo imperioso e tão justo quanto intervenções divinas, quando praticadas por polícias e exércitos como a única possibilidade de paz reinante. De um mundo incrédulo nas utopias de caráter humanista, quando surge alguém ou alguns que se insurgem e praticam insurreições, desobediência civil, praticam comunitarismo e amor forte pelos que compartilham das mesmas indignações ante as instituições (recriando algo que refere diretamente ao sistema denominado por anarquismo – surgido justamente nos tempos em que o ser humano podia se revoltar contra as determinações e o avanço da industrialização que possibilitou avanços, sim, mas que surrupiou o homem do campo: local quase idílico na comparação com a frieza e dureza das urbes que surgiam em torno das fábricas)…

É como se luz promissora iluminasse trechos escurecidos; como se notar que é possível ser pouco gentil com quem não merece gentilezas, mas, atos cometidos de forma incisiva por gente que vive em núcleos particulares amorosos, pensando, por esses atos, gentilmente numa sociedade que seria muito mais justa. Como se o modo de revelar a verdade – que possibilitou aos negros ianques, ou a algumas revoltas indígenas – com certezas destrutivas contra alvos institucionais, e sem medo da taxação por “baderneiros”, se fizesse uma possibilidade interessante para encontrar caminhos alternativos de vida.

O Grupo Voina é documentário feito pelo próprio grupo de artistas que lhe dá nome, que vive nos subterrâneos de Moscou (cidade que é um dos grandes exemplos físicos e atuais da excludência dos que não se adequaram aos sacanas e isoladores modos de vida impostos pelo modelo capitalista que globalizou e isolou “esses fracos”), que tem sociedade moldada, e que cobra, em processo similar ao ditado pelo anarquismo (roubam para comer e agem quase como mendigos), que ganha mais força de capturação das atenções por revelar que há arte embutida no modo de agirem, que se valem das “facilidades” modernas (câmeras digitais e a internet) para se fazerem mais vistos e notados pelo mundo todo.

Ao modo de diversos grupos de artistas e revoltados que agem por vias que embolam ações violentas (porque se sabe que só no papainho a coisinha não vai e fica mais fácil esconder), mas que se valem das artes para possibilitar diversas vias de divulgação e atração, Kasper se filma, à mulher, ao alegre e incrivelmente esperto filho de um ano de idade, e mais alguns amigos, cometendo verdadeiros atentados ao que é institucionalizado: as cenas deles roubando comida são inacreditáveis, os ensaios de como virar um carro de ponta-cabeça, também; os momentos em casa, as conversas de teor politizado, a calma aparente que esconde raciocínio sempre disposto a elaborar próximos passos; indo inclusive às consequências que resultariam.

Raro exemplo, pois revela cernes, ostenta mecanismos de construção fílmica, é duro como tem de ser, e artístico como só os artistas conseguem. São pessoas duras contra o que é oficial, mas gentis quando pensam num mundo melhor. que se mostram de forma sincera. Resultou um documentário ligeiro e envolvente, que ainda por cima conta com uma cena desfecho bastante boa.

Villegas, de Gonzalo Tobal. Argentina/Holanda/França – Ficção – 2012 (98min).

Esse cinema argentino, que num dado momento beirando o início desse novo século ressurgiu fortemente com o movimento “Nova Onda” (que teria como razão base o fato do empobrecimento drástico do país, fazendo com que mais do que nunca a “ideia na cabeça e uma câmera” na mão prevalecesse acima da grana necessária, o que gerou uma sequência bastante sólida de produções) ainda continua (mesmo que indiretamente) entregando trabalhos que deveriam fazer inveja a quem vive brigando tanto politicamente, ao invés de ir com as mãos na massa. Inclusive porque, a partir de um dado momento, a regularidade e quase constante qualidade passou a gerar enormidade de pospostas de coproduções estrangeiras. O que, sem saber por quais caminhos isso se deu (mais provavelmente porque o diretor ganhou em 2007 o prêmio principal da “Cinefondation”, Cannes), novamente ocorre aqui, nesse filme de Gonzalo Tobal, bancado por Argentina, França e Holanda: Villegas.

Filme e aura argentinos, que além da produção diversificada e espalhada, ainda mantém a aura da “Nova Onda” na maneira singela, simples e extremamente competente com que é realizado. Novamente tentando a estrada como um bom “nãolocal” para que as relações imaginadas sejam postas em questão e teste – como que refazendo uma até certa mania do cinema de lá em fazer “roadmovies” à sua maneira (ato que funciona bem, num país que é de vastidões, paisagens e comportamentos bem mais diversos do que só pensar Buenos Aires empresta à primeira vista; e num país onde diretores novos se interessam demais em devassar o todo, não se atendo aos locais pitorescos ou à urbanidade da capital) – Gonzalo parte com seus dois personagens Estéban numa viagem de reencontro com a família que ainda reside na cidade (agrícola e pecuarista), para um enterro: situação até comum usada no cinema para que se faça po drama que intromete as pessoas em questões de cobranças, voltas, elucidações, que ficam adormecidas nos momentos em que existe a distância física. No caso, um tanto de retrazer dos que estavam distantes com os que permaneceram no interior, e mais um “acerto” de contas entre os dois (que coincidentemente são vizinhos na cidade grande, mas vivem seus momentos de transformação e distanciamento).

As questões pessoais são gerenciadas pelo diretor com sutilezas e variações interessantes (sem serem excepcionais ou geniais), principalmente quando há a relação/embate entre ambos Estéban, o que se dá nos momentos de estrada. E o filme, como dramaturgia, funciona melhor na estrada (tanto na essência dos assuntos, quanto imageticamente: o momento das vacas na estrada, à noite, é plasticamente lindo, com desfoques e luz que emprestam momento raro; ou o quase final, num bar de parada de estrada, visto de fora, com suas luzes artificiais e posto de gasolina em primeiro plano – aí podendo-se notar muito do imaginário dos road-movies icônicos dos EUA). Com a chegada a Villegas, começa uma sensação de que tudo se estica um tanto, que não havia razão e momento de “freio”, e se poderia dizer que o filme derrapa um tanto: até sim, mas também, lá, nota-se que a essência passa a ser de um quase retrato documental do modo de vida nesses quinhões produtores – ricos -, e isso não é ruim, pois cria nuances narrativas diversificadas: além do mais, em defesa das relações e questões pessoais, é bonito o momento dentro da casa do avô que morreu, com música de Joan Baez e muitos relicários trazendo o passado. Mesmo com essa “possível” esticada/indecisão, mais um trabalho hermano a ser visto com carinho e um pouco de inveja.

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The Bella Vista (El Bella Vista), de Alicia Cano. Alemanha/Uruguai – Documentário – 2012 (73min).

O limite entre documentário e ficção anda cada vez mais tênue, cada vez mais indecifrável no ponto onde se rompe ou funde: e isso concretiza alguns momentos louváveis. Outros nem tanto (por parecerem muletas moderninhas). Indo direto ao Uruguai, que anda fazendo cinema muito digno de reproduzir o modo dos seus (um país que parece deslocado nesse mundo atual pleno de semelhanças globalizadas, onde seus seres agem como se fossem dos tempos em que fio de bigode representava mais do que tudo a honra do homem; onde temas que parecem complexos demais – como o dos travestis, também retratados no filme – são encarados com curiosidade e rancor, mas aparentemente sem ódio; onde o futebol ainda carrega muito dos tempos do amadorismo – enquanto craques profissionais continuam sendo exportados às dezenas; ou a igreja – mesmo não sendo louvada em excesso – ainda é encarada como entidade possivelmente de tramas bondosas, principalmente nas questões de amparo social), esse filme da diretora Alicia Cano (que tem na bagagem trabalhos feitos para a TV italiana), The Bella Vista, surge como algo indecifrável se necessitado de classificação (doc ou ficção), mas que tem milhares de méritos: para além do bom humor e leveza com os quais as situações são encaradas, do belo cinema executado, ainda conseguindo o trânsito entre os gêneros de modo extremamente natural e fluido (que não exige cobranças ou provoque solavancos no espectador).

Numa cidade pequena de lá, um local que abrigou a sede de um clube de futebol amador, que depois se torna local bordel de travestis, para, enfim, tornar-se uma capela católica que sustentará 50 crianças desamparadas. Essa a história ampla e quase definidora de um país (que faz questão de denominar-se oriental, na América do Sul – mesmo que seja “somente” oriental em relação ao Rio da Prata) que carrega em si The Bella Vista. E de forma bela, sincera, pois é dada a voz (muitas vezes sem sabermos o que é representação, e outras sem sabermos se os depoimentos com jeitão de documentos são relatos de histórias reais) a todos os lados envolvidos em torno do imóvel que mudou de habitantes e aura com os anos.

A construção se dá com esquetes de situações que, ajuntadas (por nós, não obrigatoriamente pela diretora, muito menos de forma linear ou mastigada), concluem os tempos passados, confluem os que foram sucedendo, e ainda conclui um ato específico (o da confecção de “tijolos”) como fechamento inesperado. Histórias sucedem: fala-se das saudades do futebol e nota-se a relação apaixonada dos uruguaios com ele; mostra-se um flash de amor entre um garoto e uma travesti; acontecem depoimentos por vezes lindos e emocionantes demais (sinceros, autênticos, uruguaios); vai-se ao dia-a-dia; vai-se à relação com a autoridade e à desavença entre pessoas conservadoras com os do bordel; há a linda (estranha, também) cena das crianças cantando, e pulando, uma música em louvor a Jesus… Sem deixar de notar que tudo é bem filmado, com pontos de vista das lentes representando quase subjetivamente algumas situações (não por olhares únicos, mas pelo posicionamento: exemplo, no início, quando tudo é visto a altura do olhar de crianças). E tudo concluído com a edição que dá forma e jeito único: aquele que não permite distinguir o que é ficção de verdade, e o que é documentário.

FOCO ALEMANHA

Fantasmas (Gespenster), de Christian Petzold. Alemanha – Documentário – 2005 (85 min).

Fantasmas (bastante recomendado por amigos e pessoas ligadas ao “novo cinema” alemão, que busca na independência em relação ao mainstream, e parte basicamente para tal independência, dos aprendizados obtidos na Escola de Cinema de Berlim), para mim, parece quase mais um representante comum do cinema comum que se faz na Alemanha nos últimos anos. Trata de assuntos com teor psicológico (de baixo psicologismo) dominando as ações – garota órfã que não sabe o que fazer da vida, de um lado, mulher que perdeu a filha bem novinha ainda, e que não consegue de se recuperar do trauma -, e tenta revelar desigualdades sociais num país que está bem distante de sentir a realidade do que é isso (mesmo que aqui, a desigualdade praticada pela mulher que rouba sempre que possível, se estabeleça mais como algum modelo de revolta: ok, possível comprar a ideia, mas…).

Quando lembramos da pujança e inventividade do país na arte, sobra sempre a sensação de queda talvez maior do que a realidade atual apresenta. Na realidade, fica o desejo de que se retome a significação do cinema como arte que exige mais ações esplêndidas, mais ousadia técnica, mais arrojo estético: talvez relatar temas e motes “comuns e um tanto falsos” impeça (até involuntariamente) as buscas de confecções mais bem tramadas. Mas, voltando ao assunto Fantasmas, deixando as elucubrações conceituais prum outro instante, há sim a “comunzice’ do cinema germânico recente dos últimos tempos, nele, mas com carinho e um tanto mais de atenção, dá para notar alguns momentos melhores.

Momentos melhores que se dão – mais do que na essência psicológica das personagens e das histórias que se cruzarão num dado momento – nos aspectos de tentativas técnico/estéticas: há uma bela câmera vagueante que conclui algumas cenas de caminhadas com belos resultados e segurança; há, sim, evidente bom cuidado com a luz e, principalmente, com as cores restadas desse cuidado; a edição – que deixa algumas lacunas para que pensemos em ajuntamentos na busca de linearidade ou lógica (principalmente no início, no parque) -, também, se não ousada ao extremo, consegue criar fluidez que exige atenção e prende as atenções. Interpretações nem tão boas e nem tão ruins. Enfim: na comparação com o que tenho visto de lá, melhor: na comparação com a história e potência do que já foi feito pelas bandas teutônicas…