TRILOGIA DO ESQUECIMENTO É LANÇADA EM DVD DURANTE O OLHAR DE CINEMA 2013.

Ocorreu ocorreu no Festival Internacional de Cinema de Curitiba o lançamento em DVD e Blu-ray dos três curtas iniciais da carreira de Rodrigo Grota – também crítico de cinema e idealizador da “Mostra Londrina de Cinema”. Um instante bem-vindo, num país onde os curtas-metragens tomaram para si uma boa parcela da importância da sobrevivência/incentivo/indicador de nossas produções. Rodrigo é um esteta (no melhor dos sentidos) ousado, que aposta forte na intervenção das imagens (tanto dele trabalhando com o material que tem à mão, quanto delas como as que devem significar o quinhão máximo na construção fílmica). Por conta dessa compreensão, desse apego, seu primeiro trabalho aqui da “Trilogia”, o Sattori Uso pareceu excessivo na ostentação de métodos e “truques” (sempre valendo dizer que é a minha opinião), o que se faria mais compreensível com o passar do tempo, com o acúmulo de obras que determinaram autoralidade. Já Booker Pittman revelou que o que me pareceu excesso por exercício, na realidade era fruto de quem confiava demais onde queria chegar: e nota-se um avanço tremendo, onde excessos se adéquam mais organicamente ao que é contado. Modo de contar que se “fecha” (se fecha no caso da trilogia) magnificamente com Haruo Ohara: filme complexo visualmente, complexo mo alcance de mote, e quase que “resposta” a quem (como eu), talvez não tenha tido paciência lá no início.

Se fosse reescrever as críticas iniciais (principalmente pelo ajuntamento e constatação da linha seguida) provavelmente mudaria o enfoque, tentando criar, eu, organicidade. Mas as mantenho como documento do tempo (como modo de percepção de momentos meus, também, como crítico) e reposto aqui na cobertura de Curitiba: até porque, as constatações novas não invalidam totalmente as opções dele, em cada instante, e como soaram à minha compreensão.

Sattori Uso 2012 (17min).

O jovem diretor prega uma peça anunciada nesse filmete. Costuma avisar – quando presente – aos espectadores que seu curta é um falso documentário. Brincadeiras de tal gênero são comuns no cinema, mas o fato de ter de entregar o ouro, de ter de dizer antes da “visita” que está ali para pregar uma peça, revela uma certa insegurança. Ou, talvez, sirva como modo de evidenciar, “entre linhas”, que a verdadeira intenção está em direcionar o olhar do público ao que parece realmente ser a intenção do trabalho: um exercício de estilo. O filme todo se reveste de pretensão fotográfica e rítmica, que no frigir dos ovos, não acrescenta nenhuma novidade à história dos curtas metragens – ninguém pede isso a cada filme lançado, mas existem indicativos de que a obra se pretende “superior”. Há elaboração nas tomadas de câmera, mas nenhuma é tão complexa ou interessante como parece ser a intenção; há o ritmo das atuações que tentam fazer o clima anunciado na apresentação oral; há um trabalho de cores que tenta entregar a época fictícia de onde deveria ser originária a obra… Mas tudo, no final, rescende a juventude demais, e falta de reais conhecimentos para se atingir patamares de similaridades (temporais, narrativos e até de textos) desejados. Acaba sobrando mesmo somente o exercício de estilo aprendido na faculdade; que pode e deve progredir. Mas que, por enquanto, não colou.

Booker Pittman 2008 (15min).

Rodrigo Grota optou por fazer uma carreira de rebuscamento visual. Por vezes cobro esse tipo de atitude em outros cineastas. Estou em dúvida. O problema (virtude?) dele é que seu encanto pelo produto plástico parece estar colocando suas evidentes possibilidades num canto único que o estaria “dimensionando” em patamares puramente “rico estéticos”. Em Satori Uso (2007), esse seu plano visual ultrapassou qualquer barreira de razoabilidade e o que resultou foi trabalho que me incomodou bastante pelo nada a dizer, a não ser exibicionismo. Nesse Booker Pittman há o evidente passo à frente: se conta algo, se tenta dar ordem às imagens (à primeira vista é mais caótico que o anterior, mas quando digo “ordem às imagens”, quero dizer razão de elas terem virado filme). Só que ele insiste em transitar com seus curtas pelo mundo dos documentos (e falsos documentos também) e aí, novamente, percebo que o que poderia ter resultado algo esclarecedor, revelador, emaranha-se em cortes estranhos, em opções de sequência estranhas – a tal mania dele, do “rico estético”. Não dá para negar que ele tem qualidade quando se percebe até mudanças de cor quando se imprimem “datas” e momentos na tela – o passar de momentos são de “origem de cor” diferente -, por exemplo. Mas ainda aguardo uma acomodação que o inserirá mais dentro do “cinema”.

Haruo Ohara 2012 (16min).

Terceiro filme de Rodrigo Grota que critico nos últimos três anos (antes, Satori Uso; depois, Booker Pittman). Constatações: já ficou mais do que óbvio que ele trabalha como poucos no mundo dos curtas no modo de imaginar planos, quadros, contrastes e nuances cromáticas (principalmente por circular demais no mundo do PB). Com qualidade de resultados que suta de tão boas. No caso de seu primeiro trabalho, via problemas ao imaginá-lo como um exercício de estilo oferecido demais – havia toda a beleza, mas muito pouca “alma” a ser considerada. Já no segundo, um salto espantoso de firmação na arte como um todo a mais do que a “beleza somente pela beleza” confirmava que poderia avançar para, com o tempo, concretizar, num todo, o que já demonstrara desde o início pela compreensão do desenvolvimento bem particular da técnica de manipulação das ferramentas.

Não sei se já chegou ao ápice agora (com Haruo Ohara) – espero que não, e um ou dois pequenos (?) excessos indicam para que ainda não -, mas o que constatei ontem foi de deixar muito positivamente pensativo, pela complexidade conseguida. Complexidade: no caso, o casamento de retratar alguém comum, que gostava de fotografar (e tinha de trabalhar duro como todo o imigrante japonês que foi para o norte do Paraná) e deixava registros esporádicos soltos nos espaços, fazendo com que tal paixão pudesse ser reinterpretada pelo seu próprio (de Rodrigo) modo de (pelo seu modo de perceber como se usam as luzes), ao mesmo tempo em que se nota o esforço por manter o padrão de registros de modo o mais similar possível.

Complexidade: o nítido resultado obtido que conseguiu ser muito distante do simples exercício anterior (pois aqui percebe-se que há a fluência narrativa que segue uma lógica que une as partes: há “alma”). Daí à beleza: que vai se avolumando pelo decorrer da projeção, que entrega que se está falando a arte imóvel da fotografia, mas que explode em beleza quando uma filmagem em Super 8 nos revela o próprio Haruo (já um senhor – provavelmente fim dos 50 ou início dos 60), em carne e osso, senhor já, com a prole (provavelmente a que preservará sua arte) criada pelo seu empenho em seu entorno. Rodrigo, com certeza, amadureceu.