COM “ÉDEN” E “TATUAGEM”, GRAMADO 2013 COMEÇA BEM PARA OS LONGAS BRASILEIROS.

Hoje já não se fala mais da chamada “Retomada” do Cinema Brasileiro, nome dado àquela fase iniciada em 1994, com “Carlota Joaquina”, que tirou a produção nacional das cinzas provocadas pelo então governo Collor. Isso já passou, que bom!
Mas podemos, sim, falar da “Retomada” do Festival de Gramado, que desde o ano passado reencontrou seu caminho de valorização da nossa produção cinematográfica. Um Festival que acompanho de perto há mais de duas décadas, que se perdeu feio pelo caminho das celebridades fúteis, que encontrou o fundo do poço ao homenagear Xuxa pelos seus “serviços prestados ao cinema brasileiro”, e que já na sua edição de 2012 mostrou que tem forças, sim, para reagir, graças às novas administrações e curadoria.

Mesmo sendo ainda cedo para fazer análises, já é possível dizer que, só pelos dois primeiros longas nacionais em competição aqui exibidos, este 41º Festival de Cinema de Gramado continua nos trilhos certos: “Eden”, de Bruno Safadi, e “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, são produções inquietantes, criativas, inteligentes e – talvez o mais importante – suscitadoras das mais interessantes variantes de debates.

O carioca “Éden” segue a linha do drama urbano, ao abordar a trajetória de Karine (Leandra Leal, ótima como sempre), uma jovem grávida desesperada com o assassinato de seu marido. O desespero faz que seu irmão (Julio Andrade) a leve para uma igreja evangélica comandada pelo Pastor Naldo (João Miguel, também ótimo no papel).
Mas, lembre-se: trata-se de um filme dirigido por Bruno Safadi (o mesmo de “Meu Nome é Dindi” e “Belair”), seguidor assumido de Sganzerla e Bressane. Ou seja, nada de soluções fáceis, caminhos previsíveis, personagens planos ou estética preguiçosa. Felizmente.
“Éden” é sobre expectativas não realizadas, sobre os vários “quases” pelos quais passamos na vida. É muito mais um filme sobre o caminho que sobre a chegada, onde enquadramentos inquietantes saltam aos olhos ao mesmo tempo em que um notabilíssimo trabalho de sons, músicas e ruídos envolvem os ouvidos e os sentimentos.

“Tatuagem”

Na segunda noite da mostra competitiva, o pernambucano “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, já saiu em desvantagem: ele foi exibido após a longa e exaustiva premiação da Mostra Gaúcha, o que acabou espantando boa parte do público. E quem ficou teve de lutar contra o sono e o cansaço e natural de quem acompanha as várias atrações de um Festival.
Contudo, permanecer na sala valeu um prêmio: assistir à entusiasmante estreia de Lacerda na direção de longas. Dizer que o filme é provocativo pode parecer redundante. Afinal, é isso que se espera do roteirista de “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e “A Festa da Menina Morta”, entre outros.

A história é ambientada nos bastidores de um coletivo de criação teatral pernambucano chamado Chão de Estrelas. Ali abunda a criatividade, a concepção de números musicais, a poesia, os ensaios teatrais, o amor livre. Com um detalhe: o ano é 1978, em plena ditadura militar. Mas sabiamente Lacerda não segue a trilha do panfletarismo, preferindo enfocar a ação na arrebatadora história de amor entre o artista performático Clécio (Irandhir Santos, perfeito) e o soldado Arlindo (Jesuíta Barbosa, também ótimo). Nada mais revolucionário que a possibilidade deste amor impossível.

“Tatuagem” faz um eficiente trabalho na reconstrução do ambiente de desbunde e anarquia do teatro alternativo dos anos 70. Uma reconstituição que vai muito além das questões técnicas de figurinos e direção de arte, mas que impregna o próprio filme daquela saudável porralouqice de um período onde, acreditava-se, alguém mudaria o mundo. Talvez nós mesmos. Quase dá para sentir o cheiro de incenso.

Mais que um filme de dicotomias (militar/arte, liberdade/ditadura, homem/mulher etc), “Tatuagem” é um filme sobre a possibilidade de equalizar estas dicotomias, (re) propondo uma bem-vinda utopia setentista reeditada para uma nova realidade.

Sem dúvida, começou muito bem o 41º Festival de Gramado.

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Festival.