TIRADENTES 2014: “A GENTE” E A INTIMIDADE DAS LENTES DE ALY MURITIBA.
Necessário alertar para o fato de o diretor Aly Muritiba ser (ter sido) agente penitenciário, antes de optar por ser cineasta. Necessário, também, dizer que esse seu longa, A Gente, está como um “fechamento” de trilogia em que aborda esse seu momento de vida (melhor: em que fala do sistema penitenciário do país), que iniciou com o curta A Fábrica, e teve na sequência outro curta-metragem, Pátio. E é incrível como uma das possibilidades das abordagens nos trabalhos anteriores, a da política estatal sobre a questão dos presídios, ganha estofo e potência muito maior no longa, justamente pelo lado dos agentes, que são os que têm mais possibilidades de serem ouvidos, para fora do cárcere.
Filme que tem em sua intenção inicial contar sobre como é o dia a dia dos que trabalham (Aly era da equipe Alfa e dirige suas lentes a ela) numa cadeia próxima de Curitiba, que imagina todo o modo de construção através da perseguição constante a Jefferson Walkiy, com idealização que faz de seu alvo o que jamais poderá ser perdido de vista, proporcionando muitos planos-sequência, de trás, pelos corredores vigiados, que invariavelmente cessarão em locais mais iluminados (pode ser no refeitório, ou numa espécie de escritório), onde as conversas tomarão grandes momentos do trabalho. Por essas conversas – que são incríveis pelo modo de agir de Jefferson, sempre sério nos questionamentos aos detentos, quanto duro, quanto um tantinho sarcástico e até cobrador quando depara com situações que não lhe cabem numa lógica de homem aparentemente atormentado por ser tão honesto – o lado das explicações é cumprido de modo a quase não restarem dúvidas sobre o que é aquilo ali. São conversas, questões, indicações, questionamentos direto a presos (os momento em que um reclama por atendimento médico; outro em que o preso pede para ser deslocado de sua cela, por medo; mais um em que há até um pito num homem de mais de 60 anos que parece não tomar jeito na vida… Ou os outros em que entre si os agentes discutem o futuro, a falta de material, o que está acontecendo em São Paulo…) que levarão o doc, ao final, a posicionamentos de cobranças, políticos, sindicais e tal… Isso faz de A Gente o vértice mais forte da trilogia, o que mais pode sustentar… Mas não é somente lá dentro que as coisas acontecem.
E quando as lentes saem pela primeira vez dos interiores para a vida, vão à casa de Jefferson: uma residência comum, onde tem família (mulher e filho), onde vê TV, e se alimenta, para, num processo que parece da vida irreal transportar-se (e transformar-se) para um Jefferson Walkiu que é pastor – nas horas vagas. Daqueles que se emocionam ao máximo que prega por Jesus, conclamam ao batismo os “perdidos” e se entregam de maneira bastante contundente aos ofícios em seu templo. São instantes em que a vida fora do presídio, longe de um trabalho que não é mesmo dos mais saudáveis – principalmente para a saúde mental de um ser – passam pela tela com atenção sempre mantida no máximo pelas lentes: nesses instantes, as câmeras continuam perseguindo o agente de perto (aliás, é bem competente o momento da revelação dessa segunda função dele, quando é filmado em fins de preparativos, andando pela casa, saído do quarto, sempre alvo das lentes, enquanto ele mesmo colabora para o encerramento de cada momento desligando as luzes – um belo plano-sequência).
O que mais impressiona é a intimidade das lentes com todos que passam por ela. Fato que até talvez poderia ser compreendido como razoável por Aly ser um deles naqueles instantes, mas que se estende a todos os setores do filme (que, afinal de contas, com três câmera-man), por situações que pela lógica incitariam aos segredos (as conversas “sindicais”, por exemplo), ou no templo. Trabalho de aproximação e obtenção que faz lembrar bastante o que o craque maior, Frederick Wiseman, consegue de maneira inacreditável, por assuntos e mundos diversos. O som sofre um tanto – e isso num doc que requer muita atenção a diálogos complica (não dá para saber se foi problema da tenda de exibição, mas em outros filmes a coisa esteve melhor) -, fazendo com que os momentos bem audíveis de Jefferson (lapelado) “intimidassem” a compreensão de outros: há até o subterfúgio, de legendas por vezes – compreensível naquelas condições. E é muito boa a sacada das divisões em blocos, com letras que referem a contatos por rádio dividindo os trechos, sob tomadas fixas e amplas…
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