TIRADENTES 2014: EXPERIMENTAL, “A MULHER QUE AMOU O VENTO” É BONITO DE SE VER.

Até que instante a inocência vigente nesse longa de Ana Moravi pode ser aceita como modo dela imaginar que o cinema ainda pode ser receptáculo de obras que prescindam da dramatização exacerbada, ou de idas a extremos, em favor da poesia: em favor do contado espremido entre lirismo e filosofias anímicas? Até onde o rebuscamento visual podendo parecer a maior ousadia consegue sustentar uma obra em que os passos determinam uma certa juvenilidade a mais nos conceitos de narrativa, que exigiriam um pouco mais de densidade para imprimir mais peso: sempre necessário um certo peso na composição, pois a leveza extrema tende a afastar, a permitir que as sensações evaporem?

Tais perguntas se fazem necessárias para que se tente compreender se todo o sequenciamento de A Mulher que Amou o Vento parece enfraquecido mesmo pro falta de idas e tentativas, ou se foi mesmo proposta tentada, para que um clima de miologia leve perpassasse como maneira de contar sem que o choque ou o brusco interferissem a ponto de distrair a atenção para fora do contado, na busca de outros significados ou de mais elaborações estéticas para pensá-lo em unidade mais complexa. Porque o que temos mesmo pelo tempo quase integral – afora um início mais sólido que coloca as intenções sob expectativas máximas – passa a impressão de que Ana se contentou demais com a natureza vigendo sobre a construção, sobre as atuações, sobre as ideias, sobre o processo narrativo, sobre a fluidez (sempre tomada pela necessidade evidente de fazer com que o entorno e Flora – Thaïs Dahas – estivessem colorindo o ambiente).

Enquanto via o filme minha memória ressuscitou um quadro de Giovanni Tiepolo, em que Zéfiro e Flora aparecem unidos. Ele, definido fugazmente como o Vento Oeste (ou vento gentil), e ela como a deusa da floração. E na comparação da riqueza da tela, instantaneamente veio a sensação da beleza imposta visualmente no filme tentando a referência (filme de muitas cores nos tempos reais – porque há os instantes do irreal, onde as imagens ganham nuances mais assustadoras, num negativo -, em que tudo que refere à deusa da floração é de beleza imposta pela natureza e transformada ao seu toque e desejo). Tanta beleza visual – arranjada das belas montanhas mineiras -, se funcionam como talvez o melhor elemento do andamento, veem-se feridas pela evidente falta do vento na região, o que levou ao paradoxal das sensações tendo de conviver como o visual capturador, sonorizado por ruídos que tentavam imprimir sonoridades que deveriam ser causadas pelo ar em movimento.

Enquanto lembrava das figuras pintadas de Zéfiro e Flora – da mitologia romana, mas como quase toda essa provavelmente reinterpretação da mais antiga, a grega -, via em tela uma atuação leve (novamente falo da leveza) da Flora do filme, mas de leveza que não era a ideal, enquanto suavizada ou cercada por um Zéfiro (aqui, Dellani Lima) que aparecia por angulações que não eram das mais bem planejadas, ou não renderam o esperado. Um tanto da comparação (infelizmente por vezes fica difícil dissociar, principalmente quando a outra obra também é imagética) do mito; um outro tanto de indecisões e menos densidade (novamente falo de peso) do que seria o desejável; e mais um tanto que o faz exagerado na constante narração em off. Não é filme do qual se corra desesperadamente (é bonito de se ver), mas é filme que exige de Ana na próxima investida um tanto a mais, menos contenção, ousadia (que, diga-se, é muito de seu pregresso e de seu eterno amor, Dellani Lima, em trabalhos anteriores).