TIRADENTES 2014: TIRADENTES 2014: “AQUILO QUE FAZEMOS COM NOSSAS DESGRAÇAS” E AS IMAGENS SOLTAS PELA VIDA.

Arthur Tuoto abdica – parece que isso foi ato proposital em favor de ser mais um aparato de reforço para a sua proposta nesse seu longa-metragem – dos créditos ao final da apresentação de Aquilo que Fazemos com Nossas Desgraças. Proposta que, já anunciada no palco pelo próprio Arthur, estava principalmente no distanciamento de quase todas as ligações minimamente imagináveis que são as comuns para a confecção de cinema, em benefício de uma obra que pudesse servir de amparo/companheira a conclamações entre viscerais e poéticas para o que é a tragédia imposta aos homens, em tempos nos quais poucos monstros devoradores e destruidores dominam os destinos: e o filme revelará que ele pensa em todas as espécies de destinos, desde os da sobrevivência ditada pelas regras que o organismo necessita para sobreviver, ás que remetem ao campo das necessidades de abastecimento intelectual.

A ação de não inserção dos créditos – se isso for confirmado como proposital -, configuraria um ato final, em que a apropriação de imagens soltas pela vida, por esse mundo virtual que nos permite todos os acessos possíveis, representaria um dos modos de reclamações diante das importâncias e dominâncias desses “monstros” donos da Terra, pois estaria sendo atacada a questão dos direitos sobre as imagens que, afinal de contas, de alguma forma já foram ao mundo e tiveram seus laços com seus criadores rompidos. De todo modo, créditos finais ou não, a proposta do diretor era a de criar quase que uma guinada total no cinema, quando resolve que fará seu filme sem câmeras para fazê-lo: o que num primeiro instante cheira a chiste ou engano, mas que pelo prosseguir determinará que as imagens estarão lá sim – catadas –, e que a outra grande força dessa arte, a edição, será a ferramenta mais utilizada para o todo. E bem utilizada.

Causa um pouco de cansaço notar já logo nos primeiros instantes que Godard será o deus das ideias, o deus a ser seguido, o deus a ser imitado, e que o francês – narrado ao estilo total dele em outros seus filmes que também vociferam contra o sistema, contra os dominadores, contra os ianques, contra todos esses monstros – será o idioma utilizado. Algo que situa a obra – como a todos os reverenciadores incondicionais do gênio franco/suíço – num patamar de louvação que na realidade enfraquece um pouco o poder da ideia geradora. Reverenciar explicitamente retira invariavelmente o foco na conclusão da obra – mesmo que na concepção o reverenciado tenha sido o estímulo, provocando emulação –, deslocando bastante do que seria somente o desejável, que é ela concluída por quem a concretizou.

Mas superado esse susto, quando o filme vai se contando, vai se abrindo à compreensão, fica evidente que há muitas qualidades, e bem boas, ali. As imagens encontradas para ilustrar visualmente muito bons textos narrados (sobre tela preta, que se abre sempre para expor filmes de câmeras de segurança, de leilões inimagináveis, de coisas das políticas… sempre respeitando as “bitolas” em que foram criados, o que gera interessantes sensações) acabam induzindo o espectador a compreender, acumulativamente, o que Tuoto propôs, e num “longa curto”, o que poderia parecer ser exercício facilmente a virar o fio, acaba por se encontrar correto e concreto dentro de uma medida exata. Muitos instantes, variações de temáticas, sob a tutela de uma central, e com diversos modos de impacto.

E o momento final é impactante, quando uma câmera de segurança filma o que seria uma briga violenta, numa festa, provavelmente numa casa, com imagens contínuas de muitos minutos mostrando pessoas que correm e somem, que suplicam e fogem, que batem foto ou ligam para pedir ajuda: dentre tantos momentos mais elaborados na edição, ou com ligação mais rebuscada ao que ditou o trecho de então, esse causa o misto maior dos impactos, pois nos coloca na posição do monstro que observa tudo sem permissão, nos colocando também como alguma daquelas pessoas que correm tresloucadas, entrando e saindo do campo de filmagem: e, aí sim já com a imposição da edição, com a densidade tomando conta do ambiente através do auxílio do som embutido por todo aquele instante.

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