19o. CINEMATO: “O MENINO E O MUNDO” ENCANTA O FESTIVAL.

Noite de encantamento aqui no 19o. Cinemato. Assim como tem feito em todos os lugares por onde passa, o desenho animado de longa metragem “O Menino e o Mundo” também arrebatou a plateia cuiabana com seus traços mágicos e sua história pungente.

Falado num idioma mágico e universal, o filme mostra a saga de um garotinho sem nome que vive com seu pai e sua mãe num pequeno paraíso rural. Seu dia-a-dia consiste em interagir com a natureza, brincar no rio e, claro, voar junto com as fofas nuvens do céu. Até o dia em que o pai se vê obrigado a buscar o sustento da família longe deste paraíso. De mala, chapéu, e uma torturante gravata vermelha lhe apertando o pescoço, o pai sai em busca de seu papel de grande provedor. Antes, porém, deixa para o menino sua herança cultural: singelas notas musicais tocadas numa flauta, que o menino se encarrega cuidadosamente de guardar numa latinha. Mãe e menino se veem, então, vítimas do êxodo rural, da migração, e o pequeno núcleo familiar se rompe. Mas a saudade vai se tornando insuportável demais para o garotinho que, certa noite, faz também sua própria mala e cai no mundo em busca do pai, tendo como bússola apenas as notas musicais que um dia saíram de sua flauta.

E isto é apenas o começo. A partir daí, Alê Abreu (o mesmo roteirista e diretor de “O Garoto Cósmico”) monta um duro e poético painel das relações homem/trabalho que têm destruído a sociedade moderna. A exploração do capitalismo, o caos urbano, a febre consumista, a opressão multinacional, nada escapa do olhar atento de Abreu. Nem a alienação popular via futebol, tão em moda neste ano de Copa, e que já estava presente neste roteiro escrito há vários anos.
Porém, mais até que as críticas onipresentes no filme, “O Menino e o Mundo” chama a atenção pela delicadeza de seus traços, pela profusão das cores, e pela singeleza de toda a sua narrativa. É um filme que se apoia fortemente em sua belíssima trilha sonora, ela própria um forte e determinante personagem da história.

Não se deixe enganar. “O Menino e o Mundo” não é apenas mais um filme sobre um filho em busca de seu pai, como os excelentes “Central do Brasil” e “El Viaje” (argentino de Fernando Solanas), apenas para citar dois exemplos. Ele é muito mais que isso: é uma denúncia sob a forma de poesia, é a história de uma descoberta infantil forjada pelos traços mágicos de uma animação magnífica, e embalado por uma trilha onírica que parece ter vinda diretamente do mesmo mundo de duas luas onde habita o protagonista.

Após a sessão do filme no Festival de Cuiabá, deveria ter sido exibido o documentário “Fla x Flu”, o que não foi possível em função de problemas técnicos. Mas durante a espera da sessão que não aconteceu, o que mais se ouvia na plateia era gente assobiando o tema musical de “O Menino e o Mundo”. Pelo visto (e pelo ouvido), não foi apenas para o filho que aquele dedicado pai deixou uma herança cultural afetiva sob a forma de música e poesia.

“O Menino e o Mundo” ganhou Menção Especial do Júri no Ottawa International Animation Festival, Menção Honrosa do Júri na Première Brasil – Novos Rumos, no Festival do Rio 2013, :: Prêmio da Juventude – Melhor Filme Brasileiro na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e Primeiro Lugar na Categoria Animação no 35º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de La Habana, Cuba.

Mais informações sobre o 19º Cinemato em www.cinemato.com.br

Celso Sabadin viajou a Cuiabá a convite da organização do evento.