JORGE FURTADO:
O cineasta Jorge Furtado conversou com Celso Sabadin sobre seu novo filme, o documentário “O Mercado de Notícias”, que estreia nesta quinta-feira, 7 de agosto.
Planeta Tela – Você é conhecido como cineasta e roteirista, e tem grande atuação no campo da comédia. Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre Jornalismo?
Jorge Furtado – Bom, eu sou cineasta, mas também sou um jornalista frustrado [risos]. Na verdade eu até comecei a estudar Jornalismo, mas acabei abandonando o curso exatamente para fazer Cinema. Profissionalmente, quase tudo o que eu faço se desenvolve nas áreas do cinema e da televisão, mas pessoalmente eu não consigo imaginar minha vida sem ler jornais, sem procurar notícias na internet, sem me atualizar muito sobre todas as coisas.
Gosto tanto de Jornalismo que já há algum tempo eu venho fazendo um blog falando de vários assuntos, entre eles, o Jornalismo [o endereço é
http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado].
Planeta Tela – Mas, pelo menos no seu documentário, sua postura em relação ao Jornalismo é bastante crítica.
Jorge Furtado – Já há algum tempo que eu vinha notando que o Jornalismo está em risco. Num primeiro momento pela mudança brutal da tecnologia, que transformou toda a lógica da profissão, e fez com que o Jornalismo tradicional perdesse espaço. Mas este risco acontece também porque o Jornalismo começou a abdicar dos seus próprios princípios fundamentais, como a investigação, a imparcialidade, a busca pela verdade, e tudo o mais.
Eu já estava com esta inquietação, com esta indignação, e de repente, ao ler o livro A História Social da Mídia, de Peter Burke, fiquei sabendo da peça The Staple of News, que o dramaturgo inglês Ben Johnson escreveu no século 17. Fui atrás de uma tradução da peça, e não encontrei nada, nem em português de Portugal. Resolvemos então, eu mesmo e a professora Liziane Kugland, fazermos a tradução, que passou então a ser a primeira tradução de The Staple of News para o idioma português, passando a se chamar O Mercado de Notícias.
Encenar a peça dentro do filme foi uma forma que encontrei de tornar o documentário menos formal, de fugir pelo menos um pouco daquela formatação clássica das entrevistas e depoimentos, embora o filme tenha, obviamente, vários entrevistados dando seus depoimentos.
Planeta Tela – Qual foi seu critério para escolher os depoentes do filme?
Jorge Furtado – O critério foi escolher basicamente jornalistas da área de Política, de hard news, de repercussão nacional, de vários veículos. Foi um critério bastante pessoal também, de entrevistar gente que eu leio e sigo.
Planeta Tela – Quantos jornalistas dão depoimento no documentário?
Jorge Furtado – Pensei em colocar 14 jornalistas. Defini primeiramente este número porque usei 14 atores para a encenação da peça, e usar 14 depoentes daria um certo equilíbrio. Na verdade, a peça tem mesmo 36 personagens, mas iria ficar demais, e resolvemos fazer uma adaptação para 14 atores.
Fizemos tudo pensando em 14 nomes depoentes, mas acabaram ficando apenas 13, porque deu um probleminha para gravar o Caco Barcellos. Já estava tudo acertado com ele, mas tivemos um problema de agenda e o depoimento dele acabou não saindo.
Planeta Tela – Você convidou alguém que não aceitou?
Jorge Furtado – Apenas o Elio Gaspari. E por um simples motivo:
ele não dá entrevistas para ninguém. Nunca. Todos os demais aceitaram sem problemas. Eu mandava a peça para eles, e adiantava que eram perguntas seriam sobre Jornalismo, seus rumos, o mercado, critérios, etc. Todos toparam.
Planeta Tela – O filme cita vários casos importantes, até divertidos, de grandes erros da Imprensa. Imagino que não deva ter sido fácil escolher quais entrariam no documentário, e quais não caberiam.
Jorge Furtado – No filme há quatro casos interessantes de jornalismo mal feito ou mal apurado: o da Escola Base acusada de pedofilia, a bolinha de papel atirada no então candidato José Serra, a demissão do Ministro dos Esportes Orlando Silva, e o caso do suposto quadro do Picasso encontrado na sede do INSS.
Mas há vários outros a serem levantados e que não estão no filme. Por exemplo, no final de 2008, começaram a sair na imprensa notícias “denunciando” um “absurdo”: a publicação de receita de caipirinha no Diário Oficial da União. O problema é que isso não é absurdo nenhum, pois como a caipirinha é produto de exportação, é uma norma legal e obrigatória que o Diário Oficial publique a sua receita. Não só da caipirinha, mas de qualquer produto de exportação brasileira. E a publicação da receita foi divulgada com estardalhaço e indignação porque nenhum jornalista se preocupou antes em querer saber os motivos daquela receita estar ali, publicada.
Planeta Tela – Casos parecidos não faltarão nunca.
Jorge Furtado – Por isso a ideia é atualizar o filme através de um site. Fizemos o site omercadodenoticias.com.br que será sempre atualizado com novos casos como este.
Também colocarmos no site, aos poucos, as entrevistas em suas versões integrais. Cada entrevistado rendeu aproximadamente uma hora de material, que obviamente não cabe no filme, mas cabe no site.
Entrevista publicada originalmente no Jornal da ABI.

