GRAMADO 2014: O CINEMA BUSCANDO INSPIRAÇÃO NA HISTÓRIA DO BRASIL.

A História do Brasil, ou pelo menos dois de seus capítulos, formaram o pano de fundo da segunda noite do 42º Festival de Cinema de Gramado. Dois longas muito diferentes entre si, de propostas e estilos bastante distintos, foram exibidos na Mostra Competitiva. E ambos abordaram temas históricos brasileiros geralmente desconhecidos no grande público.

O primeiro foi o gaúcho “Os Senhores da Guerra”, de Tabajara Ruas. Quem conhece a obra de Ruas, sempre presente com muita força e intensidade aqui em Gramado, já sabe o que vai encontrar: o realizador de “Netto Perde Sua Alma” é apaixonado por temas históricos gaúchos, e os trata sempre com muita reverência em seu cinema.
Agora, em “Os Senhores da Guerra”, o cineasta se apoia na história verídica dos irmãos Julio e Carlos Bozano, jovens da elite riograndense do início do século 20,
que acabam concretizando o pior pesadelo de toda e qualquer guerra civil: o de colocar irmão contra irmão nos campos de batalha. Julio é chimango enquanto Carlos é maragato e revolucionário. O conflito é inevitável.
O tema é dos mais interessantes, mas como sempre acontece na obra de Ruas, “Senhores da Guerra” peca por um excesso de zelo formal e discursivo, quase teatral, que acaba invariavelmente prejudicando a dramaturgia e a fluidez da narrativa. Todos os personagens dão suas falas como se estivessem saído diretamente de um livro de história, e não de um episódio real. Tudo é muito reverente, buscando o heroico, o austero, o estoico, o que acaba diluindo a humanidade dos personagens e, consequentemente, a capacidade deles em criar empatia com um público que não esteja familiarizado com o episódio, ou pouco identificado com as tradições gaúchas. Talvez por isso os filmes de Ruas sejam locais demais, praticamente bairristas, e raramente conseguem distribuição fora do Rio Grande do Sul.
Tecnicamente, o filme é dos mais competentes, mas peca na dramaturgia. No elenco, André Arteche, Rafael Cardoso, Leonardo Machado, Zé Adão Barbosa, Elisa Brites e Andrea Buzato, entre outros.

O segundo longa da noite não é exatamente baseado num fato real, mas ambientado numa situação da nossa história nem sempre valorizada (ou até mesmo compreendida) pelo grande público: a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial.
“A Estrada 47”, de Vicente Ferraz, narra o desespero de um grupo de soldados brasileiros que durante a Guerra se perdem nos gelados campos italianos, sem rumo nem comando. Pelo caminho, encontram dois desertores – um italiano, e um alemão – e terão de reescrever a guerra à sua maneira.

Como o próprio diretor Vicente Ferraz, afirmou, “não é um filme de guerra”. É muito mais que isso. Trata-se de um emocionante drama de seres humanos colocados numa situação limite. Homens que lutam num conflito que pouco ou nada lhes diz respeito, jogados crua e cruelmente na hostilidade de um ambiente que mal compreendem.
O filme chega num momento dos mais oportunos, onde se discute o velho e crônico “complexo de vira-latas” do povo brasileiro, tão bem diagnosticado por Nelson Rodrigues. Os brasileiros de “A Estrada 47”, num primeiro momento combalidos e até ridicularizados por um ataque de pânico, buscam forças que sequer sabiam existir para virar um jogo que se julgava perdido antes mesmo de começar. Talvez a história que o filme conta não seja tão anos 40 como se pode pensar, e certamente esta eterna disposição da nossa cultura de buscar forças para se reinventar seja um fortes traços do nosso DNA. Afinal, como diz a Canção do Expedicionário, que fecha o filme, “por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que eu volte pra lá”.

Este é o primeiro longa de ficção (embora com um pezinho no documentário) dirigido por Ferraz, que já havia feito o instigante documentário “Soy Cuba, o Mamute Siberiano”. No elenco, interpretações irretocáveis de Daniel de Oliveira, Francisco Gaspar, Richard Sammel, Sergio Rubini, Julio Andrade, Ivo Canelas e outros.

Coproduzido por Brasil, Itália e Portugal, “ A Estrada 47” é um belíssimo filme que merece ser visto com carinho, atenção e coração aberto. Infelizmente, sua participação aqui em Gramado foi bastante prejudicada pelo adiantado da hora. Atrasos crônicos na programação fizeram com que a exibição do filme só fosse iniciada após as 23 horas, o que não só espantou parte do público, como também tirou daqueles que permaneceram na sala as necessárias concentração e disposição para vê-lo.

Não é assim que se vê cinema. Não é assim que se trata um filme.

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.