BRASÍLIA 2014: “SEM PENA” E “BRASIL S/A” POTENCIALIZAM AS POSSIBILIDADES CRIATIVAS DO CINEMA BRASILEIRO.
Como não se apaixonar cada vez mais pelo Cinema? Em dois dias subsequentes, o 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibiu, na sua Mostra Competitiva, dois longas diametralmente opostos. O primeiro, “Sem Pena”, fortemente embasado na palavra. O segundo, “Brasil S/A”, totalmente apoiado na imagem. E ambos igualmente instigantes
“Sem Pena” é um documentário paulista dirigido por Eugenio Puppo, o mesmo de “Ozualdo Candeias e o Cinema”. O tema é dos mais contundentes: o sistema judicial criminal brasileiro. Especialistas, advogados, magistrados e presos falam sobre o país que mais encarcera no mundo: nós. E de como esta febre por encarceramento não tem significado, de maneira alguma, mais segurança para a população. Pelo contrário.
O tema teria tudo para resultar num documentário esteticamente árido. O que felizmente não aconteceu. Ao invés de optar pelo tradicional formato de “cabeças falantes’, Puppo ilustra os depoimentos de seus entrevistados com imagens dos ambientes onde eles se encontram. Os rostos dos depoentes só serão conhecidos ao final do filme. Se num primeiro momento esta opção de montagem provoca um certo estranhamento, com o desenrolar do documentário ela se mostra bastante atrativa e acertada. Primeiro porque torna o filme mais “palatável” (se é que o adjetivo se encaixa num tema tão duro), e segundo porque desta forma o conteúdo dos depoimentos se apresenta menos fragmentado, mais consistente e mais denso.
“Sempre me incomodou muito assistir aos documentários em que você vê a pessoa enquanto ela dá o depoimento. A meu ver, isso influencia a informação sobre o que está sendo dito. Se você não põe a imagem, fica tudo no mesmo patamar. Quis que o espectador absorvesse o conteúdo dos depoimentos sem a influência da imagem. Quis fugir da linguagem televisiva. Achamos que não mostrando os rostos teríamos uma possibilidade de compreensão mais rica”, afirmou o diretor.
Uma impactante trilha sonora de John Cage ajuda a transformar “Sem Pena” num documentário diferenciado, que discute questões importantes e urgentes da nossa sociedade, sem deixar de lado o prazer estético-cinematográfico de se ver um bom filme.
“Sem Pena” entra em cartaz em 15 cidades brasileiras agora no próximo mês de outubro.
Totalmente na contra-mão de “Sem Pena”, sem utilizar nenhum diálogo, nenhuma palavra e nenhum texto, o pernambucano “Brasil S/A” foi o segundo longa apresentado na Mostra Competitiva do Festival de Brasília.
Em tom de alegoria, o filme especula sobre o surgimento de um Brasil novo, um país que emerge sob a sombra de uma imensa bandeira brasileira onde o estrelado círculo azul com as palavras “Ordem e Progresso” é substituído apenas por um furo. Um rombo, um espaço vazio.
Dentro desta nova realidade, um grupo de cortadores de cana é surpreendido pela chegada de máquinas colheitadeiras que realizam um bizarro balé de suposta modernidade. É preciso mudar. O cortador de cana precisa virar astronauta, pois o nosso lábaro outrora estrelado não filtra mais os raios fúlgidos do sol da liberdade, que agora pulveriza seu povo heroico.
Não, não busque explicações simples, lógicas, muito menos lineares. “Brasil S/A” é uma provocação tanto estética quanto temática, muito mais focada em perguntas que em respostas.
E nem se esperava nada diferente do diretor Marcelo Pedroso, jovem na idade, mas veterano na participação de dezenas de festivais pelo Brasil e pelo mundo, tanto com seus curtas, como com seu provocativo longa documental “Pacific”
Pode-se esperar tudo dos sempre polêmicos filmes concorrentes em Brasília. Menos tédio.
Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do evento.

