AMOR DE MÃE, VINGANÇA E VIOLÊNCIA PERTURBAM EM “PIETÁ”

Pietá

Por Celso Sabadin

Não faz muito tempo a Coreia do Sul havia produzido um belo filme sobre as dimensões incomensuráveis do amor de mãe: “Mother”, de Bong Joon-Ho. Agora, o também sul-coreano Kim Ki Duk radicaliza ainda mais o tema com “Pietá”.

Com a clara intenção de atingir o espectador na boca do estômago, Duk mostra a história de um agiota que mutila seus inadimplentes para poder receber o dinheiro do seguro. Simples assim. Com crueza e crueldade próximas do insuportável, o personagem perambula por uma ambientação sórdida, claustrofóbica, onde tudo é caótico e sem horizontes. Tanto física como moralmente. Pequenos trabalhadores enclausurados em minúsculas oficinas desperdiçam suas existências em desesperadores becos sem saída. Não há perspectivas para ninguém. Sequer para o agiota, que ao mesmo tempo em que coleta seu dinheiro, se afunda num círculo vicioso de violências e masturbações.

Até que se abre diante dele um universo totalmente novo: a possibilidade da existência de uma mãe. E, consequentemente, a possibilidade transformadora de ter, talvez pela primeira vez na vida, algo a perder.

Kim Ki Duk pega pesado no clima depressivo e opressivo, ao mesmo tempo em que investiga um tema bastante marcante no atual cinema sul-coreano: a vingança. O cineasta faz do microcosmo onde se passa a ação uma metáfora das próprias relações homem/trabalho que, faz tempo, não funcionam. Quase não há céu; quase não há sol neste lúgubre distrito industrial. Em seu universo, o trabalho só traz miséria e sofrimento. Talvez seja difícil de questioná-lo neste ponto.

Premiado em vários festivais internacionais, o diretor de “Time – O Amor Contra a Passagem do Tempo”, “O Arco” e “Casa Vazia”, entre outros, conquistou também com Pietá um dos maiores prêmios do cinema internacional: o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2012.

Veja, mas jante antes. O filme tira o apetite de qualquer um.