“BLING RING” MERGULHA FUNDO NO POÇO DA FUTILIDADE.

Não acontece muita coisa em “Bling Ring – A Gangue de Hollywood”. Nem precisa. Porque o pouco que acontece é tão cruel e perturbador que o simples registro do fato em si já justifica o filme.

“Bling Ring” é o nome como ficou conhecido o grupo de adolescentes que cometeu uma onda de crimes nas luxuosas mansões hollywoodianas. Assassinatos? Drogas? Nada disso. Totalmente desprovidos de qualquer tipo de massa cerebral, os jovens, ricos e vazios, se especializaram em roubar mansões de famosos. Mas a ideia não era furtar dinheiro ou joias, e sim roubar-lhes o “estilo de vida”. Mergulhados em revistas e sites especializados em fofocas, as meninas e os garotos (mais meninas que garotos) selecionavam, a dedo, o tipo de roupa ou acessório que queriam usar, para depois escolher qual famoso se adaptava aos seus gostos, e assim invadir-lhes as mansões e partir para a colheita. Era importante também, para eles, permanecer um pouco nas casas escolhidas, beber alguma coisa, fazer uma festinha, enfim, experimentar um pouquinho do life style do assaltado.
O mais importante porém, viria depois: exibir o produto do roubo em baladas a ser fartamente fotografadas e expostas no Facebook. Claro. Roubar sem exibir não teria graça nenhuma.

É interessante perceber como estes representantes da cultura da ostentação e da autoexibição tinham, sim, total consciência dos crimes que cometiam. Nada era feito sob efeito de drogas ou álcool, muito menos sob o rótulo da ingenuidade ou da molecagem. Eram assaltantes calculistas que usavam a internet – esta imensa vitrine mundial arauto da falta de privacidade – como principal ferramenta.
O auge da futilidade absoluta parece estar no final do filme (não, não é spoiler), quando os jovens, pegos pela polícia, ficam ainda mais felizes e eufóricos ao perceberem que a cadeia e a punição lhe trouxeram aquilo que eles mais almejavam na vida: mídia, fama e, consequentemente, reconhecimento. “Recebi mais de 300 pedidos de amizade no Facebook”, diz, sorridente, um dos condenados.

No elenco estão Emma Watson (a Hermione de “Harry Potter”), Taissa Farmiga, Israel Broussard, Claire Julien e Katie Chang. Todos sob a direção sóbria e eficiente de Sophia Coppola.

Em tempo: quando digo que o auge da futilidade absoluta “parece” estar no final do filme, faço a ressalva: parece. Isto porque, lançado o filme, recebo um press-release dizendo que a distribuidora de “Bling Ring” fez uma parceria com uma grife de moda, através da qual um concurso dará 20 kits com produtos Sephora e Vandal para “looks” inspirados em personagens do filme. Ou seja, uma promoção que enaltece exatamente o que o filme está condenando e mostrando como doentio e ridículo.
Algo mais ou menos como fazer promoção de cocaína para lançar “Scarface”.

Falta muito para o fundo do poço?