“UM TOQUE DE PECADO” É RETRATO CRUEL DA CHINA CONTEMPORÂNEA.

Grande, belo, misterioso, um tanto indecifrável, bastante violento. Assim é o filme chinês “Um Toque de Pecado”. Assim é a China. São histórias aparentemente sem relações umas com as outras, mas que compõem um grande painel sobre as transformações econômicas e sociais da vida chinesa, e como isso tem influenciado no equilíbrio mental de seus habitantes.

Um trabalhador não se conforma com o fato de seu patrão não ter dividido os lucros com os funcionários, conforme prometera. Uma mulher traída manda espancar a amante de seu marido. Um jovem garçom se apaixona por uma das prostitutas do estranho e luxuoso prostíbulo onde ambos trabalham. Estes e vários outros personagens desfilam pela tela, aparentemente desconexos, mas escancarando com clareza uma sociedade que inchou de forma desequilibrada. Gigantescas construções chamam a atenção em meio ao gritante silêncio do filme; grandes distâncias exigem grandes deslocamentos e geram grandes aglomerados urbanos onde as pessoas se amontoam em busca de um emprego. O excesso de mão-de-obra e o gigantismo das situações criam um país de desrespeito às leis. A vida individual parece valer muito pouco, quase nada. A privacidade parece um conceito inexistente, ao mesmo tempo em que a solidão se transforma em regra.

O roteirista e diretor Tian zhu ding já havia abordado o tema no belíssimo “Em Busca da Vida”, de 2006, onde mostrou vidas separadas por uma represa. Agora, volta ao assunto de forma ainda mais ambiciosa, visitando várias regiões chinesas para retratar suas divisões sociais. Nós, leigos nos idiomas orientais, certamente sofremos aqui uma perda de conteúdo, por não sabermos diferenciar os dialetos e sotaques aos quais os personagens do filme se referem. Mas nada que impeça o sentimento de perplexidade que “Um Toque de Pecado” provoca durante toda a sua projeção.

Premiado como melhor roteiro no Festival de Cannes, “Um Toque de Pecado” mostra mais uma vez como o cinema pode ser determinante e fundamental na construção da nossa compreensão do mundo contemporâneo.