REFLEXÕES SOBRE “O MENINO DO ESPELHO”, COM O PERDÃO DO TROCADILHO.
Nesta era de correrias, onde a gente reclama que não tem mais tempo pra nada, mas perde preciosas horas da vida navegando no mar de inutilidade chamado Facebook, só ontem consegui finalmente assistir “O Menino do Espelho”, de Guilherme Fiúza, que a Paris Filmes lançou em DVD.
Gostei muito. Conseguiria listar algumas dezenas de méritos do filme, como qualidade de produção, Fernando Sabino, carisma do elenco, approach poético-humanista- nostálgico do roteiro, Fernando Sabino, direção segura, e também um pouco de Fernando Sabino. Conseguiria também listar uns poucos e pequenos problemas, como a dificuldade dramatúrgica de transformar em longa-metragem um livro que é basicamente uma coletânea de contos. Não é fácil, mas pode-se dizer que o resultado final é dos melhores, com potencial de agradar a vários públicos.
O que me levou à pergunta: por que “O Menino do Espelho” não foi um expressivo sucesso de público? Claro, sempre poderemos argumentar com as velhas questões da distribuição do filme brasileiro, refém dos gringos dentro do nosso próprio país, falta de verbas para divulgação, falta de salas e datas, etcétera etcétera. É tudo verdade, já diria Orson Welles, mas acredito que exista, na base do problema, uma questão que a princípio parece insolúvel: para se fazer um bom cinema, não é mais suficiente que apenas se façam bons filmes.
Explico: nesta nossa era de total e irrestrita valorização da futilidade, o filme passou a ser apenas um detalhe dentro de um capítulo maior que se convencionou chamar, rasamente, de “Entretenimento”. Ou falsamente de “Cultura”. Algo parecido com a filosofia do ex-técnico da seleção brasileira Carlos Alberto Parreira, ao declarar que o gol era apenas um detalhe dentro do futebol. Houve um momento em que o futebol foi criado com o objetivo (goal) de se marcar gols. Houve um momento em que o cinema foi criado com o objetivo de se exibir filmes. Pelo visto, estes dois momentos se perderam no tempo.
Não basta fazer um filme como “O Menino do Espelho”, onde roteiro, direção, fotografia, direção de arte, atores, interpretações, produção etc estão acima da média. É como se nada disso interessasse mais. O que os filhos da era da futilidade querem saber é se algum ator é “famoso” (seja lá quais sejam os mecanismos que quantifiquem isso), se o roteiro é baseado em algum super-heroi da Marvel, se vai ter continuação, se os bonequinhos dos personagens estarão à venda no McLanche Feliz, se a canção-tema vai tocar no Faustão, se o Luciano Huck vai dar alguma casa de presente para alguém do elenco, se a trilha sonora do filme será cantada no The Voice, se tem alguma cena do filme que vai virar pegadinha do Silvio Santos, ou se algum pastor evangélico que barrar alguma cena de insinuação homossexual.
O filme? Assim como o gol no futebol, é apenas um detalhe. Eu mesmo, caminhando para 40 anos de crítica cinematográfica, já recebi vários convites para festas e pré-estreias que davam direito a comer, beber, e entrevistar famosos no tapete vermelho. Mas não a ver o filme, pra que? Já cansei de frequentar festivais ditos de cinema onde a quantidade de pessoas bebendo do lado de fora da sala de exibição era o triplo da quantidade de pessoas dentro da sala que queriam apenas ver o filme. O filme passou a ser uma mera alavanca para negócios.
Assim, não é de se estranhar que dos 400 filmes lançados anualmente no circuito comercial brasileiro, raros são os que realmente são vistos por um público mais substancial. São muitos os filmes de ótima qualidade, mas que permanecerão nos corações e mentes apenas daquela minoria de pessoas que vai ao cinema (ou aluga DVD, ou acessa por outros meios) por causa de um detalhe chamado filme.
A esta minoria cabe a alegria de ter preenchido seus corações com delícias do tipo “O Menino do Espelho” entre tantas outras disponíveis, para quem quiser garimpar. Além da certeza, é claro, que elas serão cada vez mais o que já são: minorias.
Mesmo porque, até onde eu saiba, Fernando Sabino nunca foi bonequinho de McDonalds.

