MESMO ESQUEMÁTICO, “UM SANTO VIZINHO” DIVERTE E ENTERNECE.
Por Celso Sabadin.
No final do século 19, o crítico e escritor francês Georges Polti desenvolveu um estudo dizendo que a literatura e a dramaturgia poderiam ser resumidas em apenas 36 situações dramáticas básicas. Tudo derivaria destas 36 situações. Se Polti tivesse desenvolvido sua teoria tendo como base o cinema comercial norte-americano, talvez não chegasse a meia dúzia.
Dentro da interminável capacidade do cinemão estadunidense de filmar e refilmar várias vezes o mesmo roteiro, estreia agora mais um novo filme que todo mundo já viu antes: “Um Santo Vizinho”.
A história fala de Maggie (Melissa McCarthy), uma mulher em processo de separação que junto com o filho Oliver (Jaeden Lieberher) tenta recomeçar sua vida mudando-se para uma nova vizinhança. Ela só não sabia que seu novo vizinho, Vincent (Bill Murray), seria um aposentado insuportável, mal humorado e intransigente. O conflito entre ambos é inevitável.
Não é preciso ser genial para perceber tudo o que vai acontecer vendo apenas os primeiros 10 minutos do filme. Está tudo ali, principalmente os famosos e esperados arcos dramáticos que transformarão todos os personagens em pessoas muito melhores depois que resolverem suas diferenças, polirem suas relações, e perceberem o outro. Mais esquemático, impossível.
Agora vem a boa notícia: por mais que “Um Santo Vizinho” apresente exatamente todas as dezenas de situações já vistas e revistas em inúmeros outros filmes, é preciso reconhecer que
o roteirista e diretor Theodore Melfi, estreando no longa metragem, fez um trabalho bastante competente. Ainda que engessado na mesmice, Melfi conseguiu criar um filme dos mais agradáveis, com bom ritmo, ótimas interpretações de todo o elenco, e uma esperta alternância de momentos cômicos e dramáticos, obtendo desta forma uma química agridoce bem-vinda e eficiente. Melfi também se revela um bom diretor de atores: o jovem estreante Jaeden Lieberher é de fato um grande achado, e a “reinvenção” de Naomi Watts como uma prostituta russa grávida é impagável. Destaque ainda para um divertido Chris O´Dowd interpretando um padre de duvidosas convicções religiosas. Sobre Bill Murray não é preciso falar muito: ele é sempre genial.
“Um Santo Vizinho” obviamente não traz surpresas, mas quem não se importa em ver um filme já sabendo qual será o final poderá passar bons momentos com ele. Mesmo porque ninguém deixa de ver “Paixão de Cristo” só porque já sabe que o herói morre no final.

