GRAMADO 2015: “QUE HORAS ELA VOLTA?” É MUITO MAIS QUE REGINA CASÉ.
Celso Sabadin, de Gramado.
Foi realmente uma pena, tanto para o Festival de Gramado quanto para o próprio filme, que o belo drama “Que Horas Ela Volta?” tenha sido retirado de competição, e exibido na noite de ontem (07/08) com o eufemismo “Sessão Especial”. O filme tem atributos pra lá de suficientes para conquistar vários e importantes Kikitos.
A explicação oficial dada pelo Festival e corroborada pela produção do longa informa que como haverá uma pré-estreia paga de “Que Horas Ela Volta?” no próximo dia 11, isso o impediria de competir, de acordo com as regras de Gramado. Sim, a regra é de fato clara, como se diz, mas uma única pré-estreia seria mais importante que colocar o longa na competição de um dos mais midiáticos festivais brasileiros?
Rolava pelos bastidores do Festival uma outra explicação – esta nem um pouco oficial – que a própria Regina Casé, a atriz principal de Que Horas Ela Volta?”, teria solicitado a retirada do longa da competição. Motivo: se o filme competisse e ela não ganhasse o prêmio de melhor atriz, isso seria prejudicial à sua carreira. Por mais que o gigantesco ego da atriz seja amplamente conhecido, e por mais que tal explicação seja plausível, preferimos não acreditar nesta teoria da conspiração. Mesmo porque o filme é muito mais que Regina Casé.
Independente de inscrições, competições e premiações, o fato é que a roteirista e diretora Anna Muylaert – a mesma dos ótimos “Durval Discos” e “É Proibido Fumar” – acertou a mão outra vez.
A trama é centralizada em Val (Casé), que personifica com muito talento esta figura tão mítica, referente, recorrente e enigmática da cultura social brasileira: a babá/empregada, aquela mulher de origem humilde que “praticamente faz parte da família” para a qual trabalha, desde que seja “da porta da cozinha para lá”. Uma triste herança do período escravocrata do nosso país.
Porém, nos últimos anos o país mudou, e esta mudança invade como um furacão a sociedade estabelecida (ou que pensava estar estabelecida) através da jovem e pulsante Jéssica (Camila Márdila, também ótima), filha de Val. Criada dentro de uma nova realidade social brasileira, Jéssica é alheia à cultura “da porta da cozinha para lá”, e sua presença no seio da Casa Grande abre as feridas desta verdadeira guerra civil que o país vive há séculos, mas que prefere não explicitar.
Falando em Casa Grande, “Que Horas Ela Volta?” dialoga muito diretamente com o filme de mesmo nome dirigido por Felipe Barbosa, com a diferença que o primeiro se passa no Rio de Janeiro e o segundo se passa em São Paulo. O que talvez nem seja uma diferença. De maneira menos direta, dialoga também com “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça, que por sinal já havia feito marcantes observações sobre o colonialismo do “quarto de empregada” em seu obrigatório curta “Recife Frio”.
Com estreia nacional agendada para o próximo dia 27, “Que Horas Ela Volta?” foi premiado em Sundance e Berlim, e já foi vendido para mais de 20 países e estreou em mais de 70 cidades pelo mundo. Merece uma excelente carreira no Brasil.
Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Festival.

