APENAS LEVANTAR UMA BANDEIRA NÃO É SUFICIENTE PARA FAZER UM BOM FILME, COMO PROVA “TANGERINE”.  

Por Celso Sabadin.

Sem dúvida, a era dos factoides também chegou definitivamente ao cinema. Recentemente vimos “Victoria”, alavancado por uma campanha de divulgação que alardeava o fato dele ter sido filmado num único plano-sequência. Agora é a vez de “Tangerine”, que chega ao circuito com o “diferencial” (para usar uma palavra que os marqueteiros adoram) de suas imagens terem sido captadas exclusivamente com três iPhone 5s. A questão é: tanto “Victoria”, que bateu o recorde mundial de duração de plano-sequência, tanto “Tangerine” com seus iPhones têm muito pouco a dizer.

Sobre “Victoria”, já publiquei uma crítica na época de seu lançamento. Sobre “Tangerine”, o longa corroteirizado (com Chris Bergoch) e dirigido pelo premiado cineasta independente Sean Baker (o mesmo de “Uma Estranha Amizade”) fala de Sin-Dee (Kitana Kiki Rodriguez), transexual e prostituta, que retorna à ativa após 28 dias de cadeia e logo fica sabendo através da amiga Alexandra (Mya Taylor) que está sendo traída pelo seu namorado e cafetão.

Ensandecida, Sin-Dee sai pelas ruas de Los Angeles, em plena véspera de Natal, à caça do traidor, para um acerto de contas. Pelo caminho, vai encontrando vários tipos exóticos, uns patéticos, outros divertidos, da famosa cidade.

O fato das atrizes principais serem efetivamente transgêneras e estrearem juntas neste filme confere a “Tangerine” uma aura de autenticidade. Kitana Kiki Rodriguez inclusive afirmou numa entrevista ser também ex-prostituta. Tudo muito louvável e até elogiável na luta pelo combate ao preconceito, mas nada disso consegue esconder a entediante superficialidade do filme, que não raro parece perdido, sem saber para onde ir e muito menos o que dizer.

Tem sido cada vez mais frequente confundir um filme com a causa que ele defende. Tem sido cada vez mais precipitado consagrar uma obra em função não de suas qualidades cinematográficas, mas sim por causa das bandeiras que ela levanta. Tal confusão não faz bem ao cinema. E é preciso levar em conta também a forte tendência do cinema norte-americano em confundir humor com histeria, o que talvez consiga justificar os vários prêmios recebidos por “Tangerine”, inclusive nos prestigiados Sundance e Spirit.

Quanto aos três iPhone 5s, vale um aviso: a qualidade das imagens só foi possível graças à utilização do aplicativo Filmic Pro, uma Steadicam, e várias lentes adaptáveis. Ou seja, não basta pegar o telefone e sair filmando por aí…