“JONAS” E O ABISMO SOCIAL MAIOR QUE SUA BALEIA.

Por  Celso Sabadin.

De acordo com textos bíblicos, Jonas era um profeta israelita que recebeu como missão viajar até a Assíria para avisar o pessoal de lá, tido como extremamente violento, que eles tinham 40 dias para se arrepender das atrocidades que cometiam. Caso contrário, iriam sentir de perto a ira divina. Mas Jonas, com medo de ser ele próprio morto pelos violentos assírios, deu pra trás e fugiu da missão. Durante a fuga, foi vítima de uma violenta tempestade e acabou sendo engolido por uma baleia, dentro da qual permaneceu por três dias antes de ser vomitado por ela. Durante este tempo, Jonas se arrependeu de ter falhado com sua responsabilidade.

O “Jonas“ escrito e dirigido por Lô Politi (em seu primeiro longa) tem alguns pontos de tangência com a parábola bíblica. Entre eles, o arrependimento e até uma baleia. Mas o filme acaba sendo mesmo um retrato das perturbações causadas pelo histórico e aparentemente intransponível abismo social brasileiro. Não apenas pelo abismo em si e a inegável constatação de seus efeitos devastadores, mas principalmente pela hipocrisia social que insistentemente tenta nos vender a ideia incomparável que ele simplesmente não existe.

 

A trama fala da paixão platônica e obsessiva que Jonas (Jesuíta Barbosa) nutre por Branca (Laura Neiva). Criados juntos desde pequenos, ambos desenvolvem uma amizade sincera, afinidades e proximidades que poderiam se transformar num grande amor não fosse pelo fato de Jonas ser filho da empregada doméstica da mãe de Branca. Ao chegarem na idade adulta – ou quase – escancara-se a dura realidade que todos são iguais…  desde que cada um saiba de que lado ficar na porta da cozinha. Inconformado, Jonas é levado a uma sucessão de erros que fazem com que ele e sua amada sejam, cada qual à sua maneira, aprisionados dentro de uma baleia cenográfica, metaforicamente presos numa fantasia destinada a jamais se transformar em realidade.

Temos novamente aqui a ebulição dos conflitos gerados no seio desta desigualdade social catalisada pela proximidade física que coloca no mesmo copo a água e o óleo das castas econômicas brasileiras que se aproximam, mas nunca se misturam. Informal, mas jamais casualmente, “Jonas” acaba fazendo coro e formando uma inadvertida trilogia com “Casagrande” e “Que Horas Ela Volta”, todos investigando as nebulosas relações entre patrões e empregados domésticas que encontram raízes na escravidão e ecos ensurdecedores na contemporaneidade.

Ainda que com algumas hesitações de roteiro (o próprio personagem Jander pergunta, em determinado momento do filme, ”Como é que uma pessoa sequestra e mata sem querer?“) “Jonas” tem vários méritos. Entre eles o de levar para a tela o fascinante universo e belas imagens do quase sempre ignorado carnaval paulista. Além, claro, da já citada, sempre necessária e aparentemente interminável discussão social brasileira.

Detalhe final: fiquei com a impressão que, por dentro, a baleia é  muito maior que por fora. Falha de direção de arte ou licença poética para metaforizar o tamanho da encrenca em que o protagonista se meteu? Cada um decide por si

A estreia foi na quinta, 27/10.