“MARTÍRIO” E “ELON” SÃO DESTAQUES EM TIRADENTES.

Por Celso Sabadin, de Tiradentes. 

Pouco tempo atrás, milhares de pessoas no Facebook alteraram seus sobrenomes para Guarani Kaiowá em solidariedade aos massacres que esta comunidade indígena estava sofrendo. Até aquele momento, para uma boa parte destes facebookers, Guarani era apenas um time de futebol de Campinas, e Kaiowá era simplesmente um rua muito íngreme do bairro paulistano de Perdizes. O desconhecimento do assunto era geral. E de certa forma continua sendo.

Neste sentido, o documentário “Martírio”, exibido na Mostra Tiradentes, vem jogar uma importantíssima luz histórica sobre o tema. Dirigido por Vincent Carelli, “Martírio” traça um amplo e abrangente panorama sobre a questão indígena brasileira em geral e o problema dos Guarani Kaiowá em particular. E, como sempre, escancara nossas dificuldades e nossa truculência histórica ao lidar com o tema. Preciosas imagens de arquivo mostram que já há quase 100 anos o tão festejado Marechal Rondon implantava uma visão militarista sobre a questão, sempre no sentido de eliminar as bases culturais dos nativos para cooptá-los ao sistema vigente, fosse ele qual fosse. Imagens menos ancestrais – estas relacionadas à ditadura militar pós-64 – mostram um constrangedor desfile de índios diante das autoridades da época, onde representantes de várias tribos, após passarem pelos devidos treinamentos militares, exibiam suas habilidades em prender, imobilizar e até torturar seus iguais. É simplesmente impensável, mas o filme chega a registrar um momento no qual índios orgulhosos mostram aos oficiais como agora eles já dominam a técnica da tortura no pau-de-arara. A céu aberto.

O registro da época atual mostra que pouca coisa mudou. A violência militarista dá lugar à violência ruralista, que fomenta a ação de milícias particulares no extermínio dos líderes indígenas, à semelhança dos antigos westerns norte-americanos. Tudo sob o olhar complacente de governos recentes que também deixaram a maionese desandar ao bel prazer da lei do mais forte. Os registros dos debates políticos oficiais sobre o tema são nauseantes. Mas o enjoo no estômago mesmo fica para o final, quando o cineasta capta imagens de uma reunião de ruralistas cujos discursos fariam Hitler parecer humanista.

Saímos do filme com um incômodo misto de sensações que variam da total impotência à triste descrença com as ações governamentais em particular e com o ser humano em geral.

Além de cineasta, Carelli é indianista, responsável pela fundação em 1986, do projeto o Vídeo nas Aldeias, que apoia as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais por meio de recursos audiovisuais. Em 2009, Carelli lançou “Corumbiara”, sobre o massacre de índios isolados em Rondônia, primeiro filme de uma trilogia em desenvolvimento que traz seu testemunho de casos emblemáticos vividos em 40 anos de indigenismo no Brasil. “Martírio” é o segundo filme de uma série que se encerrará com a realização de “Adeus, Capitão”, em fase de desenvolvimento.

Esta militância pela causa esclarece porque “Martírio” acaba de constituindo muito mais numa obra que se reveste de uma gigantesca importância histórico-social-antropológica, que propriamente artística e cinematográfica.

Um filme obrigatório.

 

A ANGÚSTIA DA BUSCA EM “ELON NÃO ACREDITA NA MORTE”.

Elon (Rômulo Braga) é um personagem em busca. Numa primeira leitura, em busca de sua esposa, com quem tinha combinado de se encontrar no final do expediente do trabalho dela, mas que não encontrou. Elon se enfurece, se desespera, mas não estranha a situação. Sai pela cidade em busca de outras pessoas que possam ajudá-lo em sua própria busca. E só encontra portas que se fecham em sua cara. Algumas simbólicas, outras bastante literais.

O filme “Elon Não Acredita na Morte”, integrante da Mostra Tiradentes, explora este clima exasperante de procura intensa, coloca uma câmera claustrofóbica perseguindo o protagonista, e desenha em seu entorno frias e escuras ambientações que sublinham o misto de ansiedade e medo de quem não consegue quebrar o círculo vicioso de suas próprias angústias. Na verdade, Elon não consegue fugir de si mesmo, e a busca pela esposa é apenas a sinalização visível de suas insondáveis procuras internas.

Durante o filme, impossível não lembrar da expressão “Cinema da Nuca”, criação sarcástica do jornalista e cineasta Alfredo Sternheim para criticar enquadramentos que privilegiam as nucas dos atores em detrimento de seus rostos. É o caso. Embora aqui o recurso enfatize a ausência de horizontes visíveis para o protagonista.

“Elon Não Acredita na Morte” é o longa de estreia do mineiro Ricardo Alves Jr., duas vezes  premiado em Brasília pelos seus curtas “Convite Para Jantar Com O Camarada Stalin” e “Tremor”.

O filme tem distribuição contratada para o circuito comercial, mas seu lançamento só deve ocorrer no próximo ano.

Celso Sabadin viajou a Tiradentes a convite da organização do evento.