“ERA O HOTEL CAMBRIDGE” DÁ VOZ AOS EXCLUÍDOS.
Por Celso Sabadin.
Há vários microcosmos dentro de um macrocosmo chamado São Paulo. Nesta cidade onde existe um mundo em cada esquina, existe também um grave problema socioeconômico que atinge milhões de pessoas: a falta de teto. É comum a existência por aqui de várias construções ocupadas pelos sem-teto. É comum a existência… mas não a visibilidade. Grande parte da população, ao passar diante de uma destas ocupações, prefere não ver, não olhar, ou fingir que não vê… isso quando não atravessa a rua ou muda de trajeto. Enquanto isso, a imprensa chama os ocupantes de invasores.
Neste sentido, é de fundamental importância o lançamento de “Era o Hotel Cambridge”. Dirigido por Eliane Caffé (a mesma do excelente “Narradores de Javé”), o longa mostra o dia-a-dia de uma destas ocupações, um antigo edifício no centro de São Paulo onde décadas atrás existia o luxuoso Hotel Cambridge. São refugiados recém-chegados ao Brasil e trabalhadores sem-teto que administram como podem tanto seus problemas de ordem interna como a eterna ameaça de despejo que paira sobre as cabeças de todos. Há um palestino que se sente bem em ocupar alguma coisa, após uma vida inteira “vivendo sob ocupação” dos outros. Há um africano que tenta resolver a questão do filho que ficou na África. Uma antiga atriz vivendo seu mundo particular de fantasias. Um diretor de teatro tentando extrair um pouco de arte da situação desesperadora. Homens, mulheres e crianças invisíveis a toda uma população e que ganham pelos menos alguns minutos de humanidade através do sonho mágico do Cinema.
Transitando com desenvoltura entre o documental e o ficcional, “Era o Hotel Cambridge” foi desenvolvido por quatro frentes principais: equipe de produção do filme; lideranças da FLM (Frente de Luta pela Moradia); grupo dos refugiados e núcleo de estudantes de arquitetura da Escola da Cidade. Por meio de oficinas dentro da ocupação surgiu a matéria prima para o aprimoramento do roteiro e da direção de arte. Tudo isso reforçou a autenticidade e força dramática do longa.
Ao colocar o próprio prédio como um dos personagens, “Era o Hotel Cambridge” cria uma trilogia involuntária com dois outros grandes longas brasileiros que – cada um a seu modo – fazem suas denúncias circunscritas às edificações que utilizam: “Sábado”, de Ugo Giorgetti, e “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho.
A estreia é nesta quinta, 16 de março.

