“CLASH” E “DÉGRADÉ”, OU A COOPTAÇÃO DAS CAUSAS NOBRES.
por Celso Sabadin.
Neste nosso mundo onde todo e qualquer pensamento, toda e qualquer ideologia, toda e qualquer espontaneidade são muito rapidamente cooptados pelo sistema econômico e transformados em produtos a serem consumidos, os lançamentos dos filmes “Clash” e “Dégradé” me chamaram a atenção. Ambos são muito semelhantes em suas formas e seus temas. Talvez até de propostas.
Com toda a sua ação confinada dentro de um caminhão de prisioneiros. “Clash” usa o tempo fílmico muito próximo do tempo real para denunciar os desmandos das ações policiais que prendem indiscriminadamente manifestantes prós e antimuçulmanos nos conflitos que se seguiram à deposição do então presidente do Egito, Mohamed Morsi. E com toda a sua ação confinada dentro de um salão de cabeleireiro, “Dégradé” usa o tempo fílmico muito próximo do tempo real para denunciar o medo e a insegurança provocados pelos intermináveis conflitos na Faixa de Gaza. Entre ambos, outro ponto em comum, este a lamentar: tanto “Clash” como “Dégradé” passam uma estranha sensação de artificialismo, algo sem alma, como produtos que se apoiam em causas nobres e importantes para tentar entronizar um cinema dito sério, dito engajado, dito político, mas que evitam chegar aos cernes de suas questões, ou mesmo em esbarrar em feridas mais abertas.
Posso até estar sendo injusto, mas “Clash” e “Dégrádé”, na minha percepção, soam como um tipo de cinema que busca mais prêmios e aplausos que propriamente consciências e inquietudes. Que visam mais júris e curadores que plateias pensantes. Que exploram a luta palestina e/ou muçulmana e/ou étnica e/ou islâmica, chamem como quiserem, mas de butique. Ou nutella, para usar a expressão da moda.

