EM DVD, “A CICATRIZ” CRITICA A FALÊNCIA DAS PERCEPÇÕES.
Por Celso Sabadin.
Por mais que esteja recheado de situações inverossímeis, é uma delícia ver (ou rever) “A Cicatriz”, filme feito numa época que talvez as pessoas relevassem um pouco as “ajeitadas” de roteiro, preferindo embarcar na aventura do cinema, ou na crítica social que se mostra aqui mais importante que a falta de verossimilhança da trama.
Baseada em “Hollow Triumph” (único livro escrito pelo ator de rádio Murray Forbes), a história é sobre um criminoso (Paul Henreid, mais conhecido como o namorado de Ingrid Bergman em “Casablanca”) que assume a identidade de um respeitado psiquiatra para tentar fugir dos mafiosos que o perseguem. Bom, para “comprar” a trama, você precisa aceitar que este criminoso estudou medicina com especialização em psiquiatria enquanto esteve na cadeia; que ele foi abordado na rua por um homem que o achou muito parecido com o psiquiatra; que este psiquiatra tem seu consultório exatamente na mesma rua em que o criminoso se escondia; que este criminoso foi capaz de reproduzir, na própria face e sozinho, uma cicatriz igual à do psiquiatra; que o criminoso conseguiu arrumar um emprego exatamente no posto de gasolina que ele precisava trabalhar para efetivar seu plano; que nem a namorada do psiquiatra notou a diferença entre ambos quando as identidades foram trocadas.
Após tantas concessões, chega-se à conclusão que na verdade o filme não propõe uma história cartesiana de narrativa lógica, mas sim uma fascinante reflexão sobre os tempos atuais: ninguém presta mais atenção em ninguém. Mergulhadas em seus próprios problemas as pessoas se individualizam, fecham-se em suas carapaças e não coexistem enquanto sociedade, tornando-se cegas ao outro, incapazes de perceber o que – literalmente – está na cara. Isso já em 1948, ano de produção do filme. Este mundo cínico, urbano e materialista, aliás, é um dos temas mais recorrentes do cinema noir.
Esteticamente, “A Cicatriz” é primoroso, principalmente pela fotografia densa e enigmática de John Alton, um dos papas de seu ofício na época.
Um grande filme que faz parte do oitavo volume da coleção Film Noir da Versátil.

