EM DVD, AS MULHERES FATAIS DE “A CONFISSÃO DE THELMA” e “TRÁGICO DESTINO”.
Por Celso Sabadin.
Homens comuns, descontentes com os rumos da vida, ou simplesmente aborrecidos com a rotina, que se transformam em presas fáceis para belas mulheres ardilosas. Este é um dos temais mais fascinantes e mais recorrentes do estilo Noir, e está presente em dois longas imperdíveis para os fãs do gênero: “A Confissão de Thelma” e “Trágico Destino”, ambos de 1950.
Produzido pela independente Wallis-Hazen (que fez 29 longas em 1949 e 1970, incluindo o clássico “Bravura Indômita”), “A Confissão de Thelma” fala de Cleve (Wendell Corey), um promotor de justiça que não suporta mais a interferência de seu milionário sogro nos assuntos de sua família. No dia no aniversário da própria esposa, ele prefere então se embebedar sozinho a comemorar em casa. É neste contexto que Cleve conhece a encantadora Thelma (Barbara Stanwyck), o que dá início a uma destas famosas “paixões avassaladoras” do cinema noir.
Com direção do alemão Robert Siodmark (um dos vários talentos europeus que, fugidos do nazismo, ajudaram a construir o estilo noir nos EUA), “A Confissão de Thelma” explora com muita eficiência a questão dos personagens divididos – nem totalmente heróis, nem totalmente vilões – uma das maiores qualidades do cinema norte-americano daquele período. Enquanto a ética e o profissionalismo do sempre comportado Cleve desmoronam imediata e irreversivelmente diante das armadilhas em que se mete para manter sua nova paixão, a calculada frieza de Thelma não consegue se sustentar diante dos inesperados sentimentos que ela passa a nutrir por aquele que deveria ser apenas um instrumento descartável de seu plano de enriquecimento. Enquanto isso, o advogado de Thelma diz que prefere sequer saber a verdade dos fatos, para que sua atuação no tribunal seja mais convincente. É o cinismo da sociedade dos anos 40 e 50 explodindo na tela sob a forma de filme.
Já em “Trágico Destino” o inocente útil é Jeff (Robert Mitchum), um jovem médico idealista que despenca de amores pela bela morena Margo (Faith Domergue, cuja carreira nunca decolou), uma paciente com tendências suicidas. Ao misturar os sentimentos da relação amante/paciente, Jeff é enredado pelos planos da garota, numa trama com boas surpresas e reviravoltas, escrita pelo polonês Leo Rosten.
A perturbação mental da protagonista – tema também tangenciado por “A Confissão de Thelma” – e que desmonta o mundo teoricamente sedimentado do cidadão supostamente equilibrado, é reflexo do fascínio que as teorias de Freud vinham provocando em Hollywood já há algum tempo. Existe aqui uma relação direta com “O Mal Estar da Civilização”, texto publicado por Freud em 1930, sobre o paradoxo existente entre os impulsos humanos e a necessidade de ser civilizado. Tais dicotomias, personalidades divididas e teorias psiquiátricas alimentariam várias tramas cinematográficas do período, alcançando talvez sua maior expressão com “Psicose”, dez anos depois de “Trágico Destino”. De qualquer maneira, vale ressaltar o título original do filme, que poderia ser traduzido como “Onde Mora o Perigo”. Sintomático.
Maureen O´Sullivan, a famosa Jane de Tarzan, quase o tempo todo com uma máscara de enfermeira, aparece aqui como coadjuvante. O papel lhe foi dado por John Farrow – diretor do filme e seu marido na vida real – como uma espécie de homenagem, pois foi Maureen que, como uma enfermeira, cuidou dos ferimentos que Farrow sofreu durante a Guerra.
Mais condescendente com o mercado, “Trágico Destino”, ao contrário de “A Confissão de Thelma”, se permite um final redentor, com o perdão do spoiler.
Os dois filmes estão no volume 8 da coleção Film Noir, da Versátil.
A CONFISSÃO DE THELMA (The File on Thelma Jordon, 1950, 100 min.) De Robert Siodmak. Com Barbara Stanwyck, Wendell Corey, Paul Kelly.
TRÁGICO DESTINO (Where Danger Lives, 1950, 82 min.)
De John Farrow. Com Robert Mitchum, Claude Rains, Faith Domergue.

