GRAMADO 2017: “LOS NIÑOS” E OS LIMITES DA CAPACIDADE ROTULADA.

Por Celso Sabadin, de Gramado.

Na programação oficial do Festival de Gramado, o filme se chama “Los Niños”. A legenda em português o batiza como “Crescidos”. O catálogo do Festival também informa que trata-se de uma coprodução entre Chile, Holanda, França e Colômbia. O site Imdb diz que é apenas chilena. De fato, nada disso e tão importante. Mesmo porque parte do público saiu da projeção de “Los Niños” (ou “Crescidos”) achando ter visto um documentário, e parte achando ter visto uma ficção.

A dúvida é pertinente. O filme acompanha o cotidiano de um grupo de amigos com Síndrome de Down que estuda e trabalha numa escola especializada para os portadores desta síndrome. O problema é que todos já estão na faixa dos 40 anos de idade, têm uma certa autonomia, e não querem mais ser tratados como crianças. A tensão piora quando um casal de downianos reivindica o direito de se casar e ter filhos, provocando o debate sobre as limitações – ou não – dos protagonistas.

“Los Niños” deixa em aberto se estamos vendo os downianos interpretando personagens fictícios igualmente portadores da síndrome (como no brasileiro “Colegas”, por exemplo), ou se toda a situação é eminentemente documental. Ou mesmo se é uma formulação híbrida, nem totalmente para o lado ficcional, nem para o lado documental. Ou ainda se eles estão reinterpretando situações que viveram de fato. E esta dúvida é exatamente um dos elementos geniais do filme, mesmo porque não é importante dirimi-la: a questão existe, é urgente e dolorida, independente dos caminhos estéticos e formais que o filme decidiu seguir. E da forma como tudo é retratado na tela, fica impossível permanecer indiferente diante da dor e da indignação daqueles que têm suas capacidades rotuladas por uma sociedade que se coloca num suposto patamar de superioridade. E aí já não estamos falando apenas de  downianos, mas de mecanismos de manipulação e poder, entre os quais se encontra, claro, a opressão pela retirada de poder aquisitivo.

Da mesma forma que os antigos desenhos de Tom & Jerry, onde os seres humanos só apareciam através de suas vozes ou de partes de seus corpos (nunca por inteiro), em “Los Niños” os não-downianos só ganham a tela desfocados ou em partes. Toda a atenção do filme é direcionada para os portadores da Síndrome, dando-lhes vez, voz e generosos closes que captam a profundidade de seus sentimentos.

A lamentar apenas a ausência, aqui em Gramado, de qualquer representante do filme, o que inviabilizou o tradicional debate sobre a obra, no dia seguinte de sua exibição. Certamente “Los Niños” teria muitas histórias para contar.

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.