“BINGO”, A METÁFORA DE UM PAÍS INCOMPATÍVEL COM O SUCESSO.
Por Celso Sabadin.
Sim, “Bingo” é um filme baseado na história real do ator que viveu o primeiro palhaço Bozo brasileiro, uma franquia da TV norte-americana trazida ao Brasil por Silvio Santos. Quem viveu nos anos 80 e 90 conhece o Bozo. Mas isso é o de menos.
Mais que uma cinebiografia – de grandes qualidades, aliás – “Bingo” é a metáfora de um Brasil que nunca dará certo. São amplas e fortes as alusões, mas para falar sobre elas necessariamente terei que dar alguns spoilers.
Portanto, sugiro que a leitura deste texto aconteça só depois que o leitor assistir ao filme.
Augusto (Vladimir Brichta, ótimo) é um ator eternamente inconformado. Talentoso e indisciplinado, ele não consegue grandes papeis, tendo de se conformar com filmes eróticos de baixo orçamento ou pontas em telenovelas. Sua carreira não decola. Um golpe de sorte lhe dá uma vaga na concorrida fila de testes para interpretar o Palhaço Bozo. A nova atração é comandada por um norte-americano que não conhece nada nem do Brasil, nem da TV brasileira, e sequer compreende português. Mas é ele quem manda. Para conseguir o papel, Augusto lança mão da sagacidade brasileira que mistura uma certa esperteza, jogo de cintura e doses de agressividade. É o jeitinho brasileiro de burlar o sistema. Um jeito nada ético, mas perdoável e até louvável, já que o sistema tampouco é ético ou justo. Afinal, dar chapéu em norte-americano é sempre bom.
Ainda mostrando talento, criatividade e conhecimento do que faz, Augusto não só consegue o papel como quebra os padrões da franquia, inova, e leva o programa à liderança da audiência, navegando na total contramão da engessada cartilha do programa dos EUA. O gringo diz não entender os brasileiros, e Augusto lhe explica que este país não é para principiantes.
Porém, claro, o sucesso sobre à cabeça de Augusto, que põe tudo a perder com sexo, drogas, rock´n´roll e irresponsabilidade. Quando tudo parece irremediavelmente perdido, quanto tudo parece que não pode piorar, piora: Augusto se torna evangélico. Fim. E “Bingo” torna-se a metáfora de um país talhado em suas raízes para jamais dar certo.
Ou seja, a criatividade e a maleabilidade típicas da cultura brasileira podem até funcionar. Podem até superar a rigidez dos padrões internacionais, subverter, e tornar-se bem sucedidas. Mas por um período breve. Alguma força inexplicável – talvez uma forte culpa católica – age nos porões do subconsciente para que haja uma autossabotagem, para que o sucesso não venha ou, se vier, que seja efêmero. Para o fracasso também contribuem – sempre – as forças multinacionais, que na verdade, diante desta cultura da autossabotagem nem precisam de muito esforço para fazer valer seus mecanismos de opressão.
A cereja deste bolo amargo é a utilização calhorda da religião, que nas últimas décadas vem minando o bom senso e o equilíbrio, provocando intolerâncias, encaminhado toda uma sociedade a uma nova idade das trevas.
É por estas e por outras que Bingo é Brasil. E Brasil é Bingo. E só não digo que somos todos palhaços porque seria ofender a respeitadíssima classe dos palhaços.
A estreia é nesta quinta, 24 de agosto.

