“COMO NOSSOS PAIS”, FILHOS, E ESPÍRITOS.

 Por Celso Sabadin.

Que obra linda e consistente Laís Bodanzky está construindo! Se com “Chega de Saudade” (2007) ela investigou o universo da terceira idade com ternura e afeto, e com “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) ela traçou um rico e real painel dos conflitos da adolescência, agora, em “Como Nossos Pais” (2017) a cineasta mergulha com vigor no sempre multifacetado mundo feminino.

“Como Nossos Pais” é tenso da primeira à última cena. Mesmo porque o filme abre com um dos maiores geradores de tensões e conflitos já inventados pela Humanidade: os almoços familiares. Sem delongas, o roteiro da própria diretora em parceira com Luís Bolognesi já detona nos primeiros minutos  a revelação-bomba que catapultará a protagonista para os infernos de suas próprias dúvidas: Rosa (Maria Ribeiro) ouve da sua própria mãe Clarisse (Clarisse Abujamra) que ela não é filha biológica de quem há 38 anos ela pensa que é. A verdade vem seca, sem preparação, sem carinho. O que veremos a seguir é uma protagonista atordoada, em rota de colisão não apenas com o mundo que a rodeia como, principalmente, consigo mesma. Ela se vê então obrigada a enfrentar suas frustrações, questionar suas supostas verdades, e se reinventar como pessoa e principalmente como mulher.

Em “Como Nossos Pais” Laís Bodanzky reforça o estilo cinematográfico que a vem consagrando desde o início de sua carreira: cerca-se de ótimos atores, extrai deles excelentes interpretações, e conta suas histórias de forma realista, contundente e vigorosa, sem jamais esbarrar em qualquer tipo de pieguices ou excessos que os temas tão difíceis com os quais trabalha podem oferecer. Seu cinema exala verdade, contemporaneidade e universalidade.

Destaque ainda para a brilhante ideia – e a não menos brilhante execução desta ideia – de escalar Jorge Mautner para o papel de um delicioso libertário que não deixou que o cinismo deste século 21 contaminasse suas convicções humanistas.

“Como Nossos Pais” estreou em 31 de agosto.